terça-feira, 16 de março de 2010

Oscar

Estar em Hollywood durante o Oscar pode parecer incrível, mas tirando o fato de que a cerimônia acaba às 8h da noite e não à 1h da manhã, pouca coisa muda.
Um dia antes, resolvi dar uma de turista e fui dar uma volta na frente do Kodak Theater. Advinha quem encontrei? Mais turistas, é claro. A Hollywood Boulevard (aquela mesma onde pego o ônibus há sete meses…) fica interditada por vários quarteirões. Muitos guardas, muitos turistas, poucos atrativos… a não ser uma estátua gigante do Oscar toda envolvida em plástico.
No dia seguinte, nos reunimos na casa de um colega – o Bob – para assistirmos à cerimônia. 
- Pessoal, não fala pra fulana que eu convidei vocês! Ela perguntou se eu ia fazer alguma coisa e eu disse que não.
Qualquer semelhança com a 7a série não é mera coincidência…
Começa a cerimônia. Bob tem TiVo, assim podemos rebobinar e rir de novo com todas as piadas de Alec Baldwin e Steve Martin, que os americanos acham sensacionais. Admito que rachei o bico com algumas delas também.
Jason Reitman (Up In The Air) perde o Oscar de roteiro original para Geoffrey Fletcher (Precious). Confesso que Up in The Air é disparado meu filme favorito do ano, mas Jason Reitman perdeu toda a popularidade depois que veio dar uma palestra no AFI e “esqueceu” de mencionar que  não escreveu o roteiro do filme sozinho, entre outros comentários infelizes.
Fletcher sobe ao palco para receber o prêmio. Meu roommate, que é negro, canta a bola:
- Lá vem o “slavery speech”. Por que eles sempre têm que falar sofrendo?
Dito e feito.
Pouco depois, chegam dois colegas de Bob. Eu achava que era impossível estar alheio ao mundo do cinema estando em Hollywood, principalmente em dia de Oscar… até conhecer esses dois.
- Quem é Kathryn Bigelow?
- É a diretora que vai ganhar o Oscar – responde a única mulher entre nós.
- Onde é essa festa? É em Los Angeles? – pergunta o outro
- É a umas dez quadras daqui – responde Bob.
- Ah, legal.
Minutos depois, eles partem, entediados.
El Secreto de Sus Ojos surpreende e dá a Argentina o Oscar de melhor filme estrangeiro. Estou louco pra o ver filme (na verdade, assisto a qualquer coisa de Juan José Campanella ou com Ricardo Darín). O filme não estreou por aqui ainda, e só pra me provocar, meu outro roommate (argentino) tem o DVD original do filme... que não roda aqui nos EUA. 
Mark Boal ganha o Oscar de melhor roteiro original por The Hurt Locker. Embora todos ao meu redor sejam fãs do filme (eu nem tanto), Mark Boal também não era a figura mais carismática do painel de roteiristas ao qual havíamos comparecido algumas semanas antes no WGA. Os comentários de “Espero que você ganhe, Mark!” vindos do público, também não aumentaram sua popularidade, uma vez que Alessandro Camon, indicado ao Oscar por The Messenger na mesma categoria, sentava-se ao seu lado. 
Kathryn Bigelow confirma as espectativas e leva o Oscar de melhor diretora, minutos antes de arrebatar o Oscar de melhor filme. Os americanos a minha volta ficam satisfeitíssimos. Minha vida permance a mesma.
Bob nos leva para mais um tour em seu prédio, onde foram filmados episódios de 24, Heroes, entre outras séries. Explica também o motivo de pagar um aluguel tão baixo por seu apartamento: a moradora anterior suicidou-se ali mesmo. Legal!
Volto pra casa. Ainda é cedo, tenho páginas para entregar na segunda-feira. Sabe como é, vida normal. Até que no dia seguinte vou almoçar, estaciono carro e uma pessoa me chama a atenção, sentada na mesinha da calçada. “Conheço essa mulher”, penso.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Diários de motocicleta - parte 3


Sem carro, sem motoca e com uma viagem acadêmica para Washington agendada para o dia seguinte, minha única opção é pedir ajuda ao meu colega de quarto e a sua caminhonete (que cheira a gasolina até hoje por causa disso), e levar a falecida ao meu já conhecido colega Edgar: o mecânico da “scooter mundo”.
- Cara, estou indo viajar amanhã. Só volto na outra segunda. Seja lá qual for o problema, CONSERTE! Não tem pressa, mas por favor, não posso mais ter problema com essa scooter.
Volto pra casa, e descubro que toda neve do mundo está caindo em Washington, o que significa, é claro, que meu vôo foi cancelado. Remarco para um dia depois.
Quatro cancelamentos depois, o seminário – o motivo da minha viagem – é cancelado. Desfaço as malas e ligo para meu amigo Edgar.
- Então, não fui viajar. Posso ir buscar a moto hoje?
- Ih, mas você disse que só vinha na segunda. Ela ainda não tá pronta.
- Bom, você pode consertar hoje, então?
- Se você vier pagar hoje, posso.
Vou até lá, pago a nova bateria, volto no dia seguinte. O PROBLEMA PERSISTE!
- Você precisa arrumar a compressão do motor. Do jeito que tá, ela vai ligar, mas vai demorar alguns minutos.
- Quanto custa pra consertar isso?
- Pelo menos uns 300 dólares.
Desencana. Afinal, o que são cinco minutos toda vez que você tem que ligar a moto?
Passo no supermercado, no que seria provavelmente a última viagem da coitada. Coloco algumas cervejas no baú. Chego em casa... e quem disse que o baú abre? Muito esforço depois, arrebento a fechadura e resgato as cervejas. O baú agora não fecha mais.
Decido andar de ônibus por uma semana, para evitar qualquer stress. Decido também que já é passada a hora de comprar um carro. Árdua pesquisa, até achar um carro dentro do meu orçamento.
Decido por um carro 2001 com 91.000 milhas. O vendedor diz que o carro ficará pronto na quarta-feira, o dia seguinte da minha nova prova de direção. Perfeito.
Dessa vez mais calmo, eu e “Little Dogy” enfrentamos mais uma vez o examinador do DMV. Ele nem se importa com o “defroster” e logo começamos a prova. Em um farol vermelho que não abre nunca, resolvo puxar conversa.
- Você é de Los Angeles?
- Não.
Loooonga pausa.
- Sou do Iraque.
E ponto. Nem mais uma palavra.
O farol não abre. Aí me lembro de que é permitido virar à direita com o farol fechado. Temo que essa falha me custará mais um dia de prova. Mas não! Minutos depois tenho em mãos o bendito papelzinho que diz “PASSING”. Enfim, Little Doggy, Kim e eu havíamos vencido a batalha.
No caminho de casa, o vendedor do carro me liga.
- Tenho uma notícia boa e uma ruim.
- A ruim primeiro.
- Seu carro só vai ficar pronto na sexta-feira.
- E a boa?
- Nós vamos ter que colocar um motor novo.
Me bate aquele medo: será que comprei um carro que já vem pifado? Mas agora é tarde, não dá mais pra voltar atrás.  Prefiro acreditar que a boa notícia é boa mesmo.
Carro na garagem (mentira, na rua, porque tecnicamente não tenho vaga na garagem), vou à Best Buy comprar um GPS. Quantas vezes você ouviu falar em blackout na Best Buy? Pois então, aquele dia foi a primeira vez pra mim também.
Volto na segunda. O GPS dobrou de preço.
- A promoção era só até domingo.
Deixa pra lá. Depois eu vejo na Amazon.
Será que a maldição dos transportes não acaba nunca?
Até que dois dias depois, checo minha caixa de correio… e lá está! Uma carta de Arnold Schwarzenegger. Minha carteira de motorista!
Antes de sair novamente, passo na garagem para estacionar a motoca em outro lugar.
E não é que ela liga de primeira?

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Diários de motocicleta - parte 2


Depois de uma longa e mal-sucedida busca por lâmpadas 12V/35W/35W pelas lojas  do ramo em Los Angeles, acabo recorrendo a um misterioso site especializado em scooters. Surpreendentemente, antes do prazo estipulado, as duas lâmpadas estavam na minha casa. (Sim, comprei duas, já prevendo que tudo poderia acontecer no trajeto estoque-minha casa).
Com a scooter funcionando, resolvo agendar a prova de direção (de carro) para ter a carteira de motorista da California de uma vez por todas. Persigo um amigo que preencha todos os quesitos. Kim e sua Mercedes (apelidada de Little Doggy) resolvem me ajudar. 
Chega o dia 12 de novembro, o dia da prova. Antes de sair de casa, tento imprimir o comprovante de agendamento. Quem disse que o encontro? Procuro por todos as pastas no computador, entro no site do DMV, até que, enfim, descubro que a prova não foi agendada.
Programo uma nova tentativa para o dia 1 de dezembro. Chego no DMV, apresento meus documentos, Kim apresenta os dele… e onde está o seguro do “Little Doggy”? 
- Sem o comprovante do seguro você não pode fazer a prova.
Kim liga para sua mãe. Está com ela. O atendente do DMV dá o veredicto:
- Puxa, você até poderia passar um fax, mas nosso aparelho não está funcionando. Você vai ter de remarcar.
Claro.
Remarco a prova para o dia 17 de dezembro. Dois depois, me dou conta que temos aula no dia 17 de dezembro. Deixa pra 2010. Remarco novamente. 20 de janeiro.
Volto de férias do Brasil, e descubro que Frank Darabont virá dar uma palestra no AFI. Que dia? 20 de janeiro, é claro.
Remarco novamente. 5 de fevereiro. Arrasto Kim e "Little Doggy” ao DMV mais uma vez. Apresento os documentos, tudo OK. Agora vai! Sento no carro e aguardo o avaliador. Chega uma avaliadora.
- Bom dia – digo.
Ela ignora.
- “Permit”?
Apresento meu documento mais uma vez, ela checa o papel.
- Demonstre os sinais com o braço.
Coloco os braços para fora e faço os sinais.
- Esquerda, direita, pare.
- Está incorreto – ela responde, enquanto entra no carro.
Dizer como seria o correto, nem pensar!
- Você tem que desligar o rádio.
Obedeço. Ela se prepara para fechar a porta do carro, e então:
- Onde está a maçaneta interna?
- Quebrou.
- Como assim? Precisa ter maçaneta!
Nem tento discutir. Se ela tentar me convencer de que ter maçaneta interna é uma “questão de segurança”, juro que desço do carro. 
Ela analisa o caso e, contrariada, me deixa prosseguir. Começo a demonstrar onde estão todos os ítens importantes do carro (limpador, faróis etc.)
- Onde está o “defroster”?
Meu Deus, o que é mesmo o defroster???
- Não tenho idéia.
- Você pelo menos sabe pra que serve o “defroster”?
Se eu lembrasse a tradução, sem dúvida saberia para o que serve! Começo a me explicar, ela me interrompe e me manda ligar o carro para seguir a prova. 
Nesse momento começo a pensar que ela provavelmente sorriu pela última vez em 1992, logo após ter feito sexo pela última vez. 
Vinte minutos depois, estou de volta do lento passeio pelas ruas de Hollywood, ao lado de minha agradável companhia. 
Estaciono o carro. Ela faz diversas anotações em seu papelzinho e começa:
- Bom, na saída do estacionamento, você fez uma curva muito fechada, saindo da área da guia rabaixada. Só por isso você já teria sido reprovado. 
Não contente, ela se empolga:
Depois, suas conversões à esquerda foram muito lentas. O carro atrás de você também precisa pegar o farol aberto! Naquele outro cruzamento, a preferencial era sua e você demorou para seguir. Na hora de dar ré, você apenas checou os retrovisores, não olhou pra trás! E na hora de mudar de faixa, você reduziu a velocidade! Isso é tão perigoso quando dirigir em alta velocidade!
Não me conformo que serei reprovado por dirigir com excesso de cautela. Ela, certa de que sou uma ameaça ao pseudo-caótico trânsito de Los Angeles, dá o verdicto com prazer:
- Você terá de refazer a prova.
Ela desce do carro, realizada. Conto o ocorrido ao Kim. Ele ri. “Bem-vindo a Los Angeles”. Ele tenta me animar, insiste para que eu remarque a prova e diz que ele e “Little Doggy” estarão comigo nessa odisséia até o fim! E me explica também que "defroster" é o desembaçador. Lógico!
Tudo bem. No fundo, não muda muito minha vida. Afinal, tecnicamente não preciso passar nessa prova para dirigir legalmente em LA.
Kim me deixa em casa. Decido ir dar uma volta com a scooter. 
Quem disse que ela liga?

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Diários de motocicleta - parte 1


Los Angeles sempre foi conhecida como uma cidade onde é imprescindível ter um carro. O corpo docente do AFI confirma a teoria – mas sempre lembrando que há poucas vagas no estacionamento do campus!
Antes de tomar qualquer grande decisão em relação a meios de transporte, resolvo comprar uma bicicleta, na esperança de percorrer diariamente os 5 km que separam a minha casa e o AFI – estrategicamente posicionado no alto de uma interminável colina. 
Tento enviar uma solicitação para o “bilhete único” estudantil à empresa de ônibus, juntamente com toda documentação necessária, foto e um cheque de US$1.00. Ainda aguardo resposta.
 
Depois de muita – MUITA! – indecisão, resolvo comprar uma scooter. Mamãe ficou bem feliz. Tento explicar que o super-veículo atinge a exorbitante velocidade de 50 km/h (na descida), e que o trânsito aqui é bem diferente da loucura de São Paulo. Mas acho que foi em vão.
Não preciso nem me preocupar em como me desfazer da bicicleta, uma vez que ela é roubada na semana seguinte – de dentro da gargem do prédio.
Motoca na mão, falta tirar a carteira de motorista. Faço a prova escrita e só com isso já tenho um permit que me autoriza a dirigir durante o dia. Como tenho aulas à noite, agendo a prova prática o mais rápido possível para poder, enfim, não depender mais de caronas ou do imprevisível sistema de transporte público.
Três semanas e duas voltinhas em volta de cones depois, já tenho o protocolo em mãos. A atendente do DMV (algo como o DETRAN daí), está confusa:
- Você não vai marcar a prova prática com o carro?
- Eu não tenho carro.
Silêncio.
- Mas para ter a carteira de motorista você precisa fazer a prova com o carro. Você pode agendar pela internet.
- Eu não posso dirigir a moto só com esse protocolo?
- Hum… Até pode, mas você precisa vir renovar esse papelzinho aqui pessoalmente de 2 em 2 meses.
Bacana!
- E o que eu preciso para fazer a prova?
- Você precisa vir com um carro em perfeitas condições de segurança, registrado, segurado e acompanhado de um motorista com carteira de motorista da California. 
Ah, tá.
- OK, vou pensar, então.
Apesar de tudo, volto pra casa empolgado, afinal, agora posso dirigir a qualquer hora do dia. Até que minutos antes de estacionar, percebo que o farol da scooter – daqueles que não se acha pra vender em lugar nenhum – parou de funcionar. 
Tudo bem, o ponto de ônibus continua a duas quadras casa…

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A Los Angeles que não vemos nos filmes

As pessoas que vêm a Los Angeles, em geral, visitam todos aqueles lugares relacionados a filmes e entretenimento: estúdios, parques temáticos, casas de show. No máximo, vão até a praia – principalmente Malibu, à procura de salva-vidas a la Baywatch.
Admito que não sou diferente – isto é, quando não “deixo pra depois”, esquecendo que os dois anos passam mais rápido do que a gente imagina.
Pois bem, nesta sexta-feira fizemos um passeio que dificilmente teríamos feito, não fosse pelo esforço de Ann Kerr.
Primeira parada: RAND, uma instituição sem fins lucrativos voltada à pesquisa e desenvolvimento, onde fomos apresentados a dados estatísticos surpreendentes, referentes à disparidade social entre brancos e negros/latinos em Los Angeles. Mais surpreendente foi descobrir que cerca de 45% dos homens de até 17 anos em Los Angeles são latinos. Não é à toa que ouço espanhol constantemente por aqui.
No almoço, integração com os candidatos a PhD da instituição. Entre eles, um cientista da computação formado em Harvard, que agora estuda a eficácia dos serviços médicos pelos EUA, e que nos explicou brevemente a discussão envolvendo a reforma do sistema de saúde por aqui. (Ah, ele mencionou também que seu colega de faculdade criou um site hoje bastante conhecido, chamado Facebook.)

Em seguida, partimos para a uma das sedes do OPCC, uma organização que realiza serviços em prol dos moradores de rua – que somam nada menos que 80.000, em uma população de cerca de 14 milhões.
Lá, fomos recebidos por dois funcionários extremamente carismáticos, que juntamente com alguns clientes, nos apresentaram a extremamente bem-cuidada instituição. 
O primeiro programa que visitamos é chamado Safe Haven, e é voltado para moradores de rua com alguma deficiência mental. O local permite que os clientes – como são chamados – tomem banho, lavem as roupas, façam suas refeições e envolvam-se em atividades de entretenimento. Inclui ainda algumas dezenas de leitos, onde alguns deles moram enquanto passam por um processo cuidadoso de reintegração à sociedade.
O segundo programa, chamado Daybreak, segue mais ou menos a mesma linha, mas é voltado exclusivamente para mulheres. Entre as diversas atividades oferecidas está um workshop, onde as clientes produzem peças que são vendidas na pequena loja existente no local.
O grande êxito da instituição – que recebe fundos do governo, de fundações e de instituições privadas – é conseguir manter os clientes longe das ruas, uma vez que tenham sido reintegrados à sociedade.
O OPCC inclui ainda diversos outros programas, como o K9 Connection, onde crianças de rua ajudam cães abandonados através de um programa de treinamento de animais.
Por último, visitamos um banco de alimentos, onde um dos funcionários nos guiou por todo o processo de doação e distribuição de alimentos, além de nos informar sobre os programas de ajuda do governo à população menos favorecida.
Voltei pra casa bastante impressionado com o trabalho e a dedicação dessas pessoas, desconhecidos para a maioria dos moradores de Los Angeles, e sobretudo para seus visitantes.
Essas pessoas não ganham o Oscar.