terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Beleza americana


Às vezes, não entendo os americanos. 
Mentira. Eu quase nunca entendo os americanos.
Um dia desses conversava com um colega do curso que morou dois anos no Japão antes de vir pro AFI. 
- Depois que voltei do Japão comecei a reparar que os americanos reclamam demais. 
- Sério? – respondi. – Nunca tive essa imagem.
Até que comecei a prestar atenção…
É comum ouvir pelos corredores que algumas das disciplinas não têm aulas o suficiente. A de roteiro, inclusive. Até aí, tudo bem. É de se esperar, então, que esses insatisfeitos sedentos por aulas aproveitem todas as oportunidades oferecidas, certo?
Errado.
Nesta primeira semana do semestre – chamada Conservatory Week – tivemos uma série de palestras sobre temas relacionados às nossas áreas. A principal delas foi uma série de quatro palestras com Bruce A. Block, autor do livro The Visual Story – leitura obrigatória para admissão em todos os cursos do AFI. Era de se esperar que todos os alunos – mestrandos! – tivessem lido o livro a essa altura. 
Então… não. 
Também era de se esperar que os alunos COMPARECESSEM às palestras. 
Também não.
- Nossa, são três horas de palestra, muito chato!
- Putz, esse cara fala muito. Os exemplos são os mesmos do livro.
- Você leu o livro? – pergunto.
- Não.
Ah, tá. 
À tarde, palestra com a roteirista Sandra Berg sobre roteiros de suspense. Um terço dos alunos de roteiro estão ausentes. Como assim? Não queriam mais aulas?
No outro dia, palestra com David Misch, criador do seriado Duckman. Se metade da turma compareceu, foi muito. “Ah, é TV, nem quero…”
Pegar pesado também não pode! Essa coisa de trabalhar o dia inteiro e ir pra aula à noite é coisa de país pobre! Nesta semana voltamos a ter aulas normais. Voltam também as reclamações sobre nossas “insanely busy Wednesdays”: workshop pela manhã, palestra à tarde, aula à noite – de quinze em quinze dias!
- Alguém precisa mudar essa aula da noite pra outro dia! – exclama um.
- Chega essa hora eu já não raciocino mais – confessa outro.
- Nossa, depois de um dia assim, intenso, eu fico até de mau-humor – lamenta um terceiro.
Ah, para! 
Se pelo menos essas palestras de quarta à tarde fossem interessantes, mas não… eles trazem uns Zé Ninguém que não sabem de nada! Um tal de Soderbergh, um alemão estranho que chamam de Herzog, um moleque chamado Jason Reitman… Nossa, que saco.
Amanhã vem um outro, aí. Um tal de Frank Darabont. Só de pensar me dá uma preguiça…
Pelo menos no fim de semana não tenho que ir ao cinema. Ufa!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

De volta para o presente


Depois de 20 dias no Brasil, correndo para encontrar os amigos, passar tempo com a família, comer açaí, pão de queijo, a salada de lula da mamãe, tomar água de coco e caipirinha – lembra quando elas eram feitas com limão e pinga? – é hora de voltar para a “América”.
Na polícia federal em Cumbica, uma fila quilométrica. E estática. Um pequeno grupo de adolescentes e seu guia empolgam-se com os planos para o dia seguinte.
- Só podemos entrar no hotel em Orlando às 6, então vamos fazer compras no Wall-Mart antes de fazermos check-in.
A mulher atrás de mim está impaciente com a fila que não anda. E com o Brasil que não melhora. 
- Esqueci que nessa época as pessoas vão pra Disney!
Sorrio. 
- Você vai pra onde? – pergunto.
- Nova York… Fazia 1 ano e 8 meses que não voltava pro Brasil e não vejo nenhuma melhora. Meu vôo sai em 40 minutos e eu presa aqui nessa fila… É sempre assim e ninguém faz NADA!
Uma família de gaúchos tem a mesma preocupação. A mãe, aflita, pede à filha para que pergunte a algum agente se eles não podem passá-los na frente. A filha se recusa. “Perguntar pra quem, mãe? Não tá vendo que a gente tá no meio da fila? Tá todo mundo atrasado!” Ah, férias em família…
Quase uma hora depois, com metade das pessoas prestes a perderem seus vôos - inclusive eu -, brotam mais funcionários e a fila começa a andar rapidamente. Uma funcionária vem apressada a procura de uma família. É a família de gaúchos, que acaba resgatada da fila e encaminhada ao seu portão de embarque, prestes a fechar. 
Cerca de 15 horas depois – sendo 14 delas dormindo –, estou em Los Angeles. O policial da imigração, ouvindo um som alto às 6 da manhã, checa meus documentos. “Você escreve roteiros? Legal! Seja bem-vindo.” 
Parece que foi ontem que estava na mesma esteira, esperando a mala (não a mesma – aliás, a história da mala fica para um outro momento). Pego o mesmo SuperShuttle – dessa vez 9 dólares mais caro! – e chego em casa. Não tem comida na geladeira, é claro. Saio para comer um hambúrguer e já me readaptar aos hábitos alimentares locais. 
Meu roommate me convida para assistir a Avatar. Como se não tivesse ficado sentado o suficiente, aceito. Chegando ao cinema, sessão lotada. Será que estou em São Paulo novamente? Pegamos a sessão seguinte. Antes do filme começar, um funcionário dá o aviso: “Estes óculos 3D não funcionarão nas suas casas, portanto não adianta levá-los para casa. Favor devolvê-los na saída. Obrigado.” Será MESMO que não estou em São Paulo?
Antes de voltar para casa, supermercado. Juro que tentei comprar cenouras e cogumelos de verdade. Mas os que já vem cortados e lavados são mais baratos! Pelo menos a hortelã era real – a 2 dólares o maço.
Na manhã seguinte, reencontro meus colegas. 
- Como foram as férias no Brasil? - perguntam.
Lembro-me do dia anterior. Um churrasco com quase todos os meus amigos, que não querem me deixar ir para o aeroporto. Demoro quase uma hora só para me despedir de todos – e só obtenho êxito depois de muitos abraços, alguns banhos de cerveja e uma camiseta rasgada.
- Incríveis – respondo.
Pergunto sobre suas férias, desejo feliz ano novo e, quase por inércia, os abraço. Alguns estranham. 
Aí me dou conta: definitivamente, não estou mais no Brasil.


sábado, 9 de janeiro de 2010

Garota interrompida

Cinzia é uma italiana aluna do curso de direção do AFI. Foi uma das primeiras pessoas que conheci ao chegar na escola. Ela já havia estagiado – ou algo parecido – no AFI no verão anterior, o que gerava diversas piadas entre ela e um dos funcionários – “nunca vou esquecer nosso intenso verão juntos, Cinzia”.
Se não me engano, foi a primeira pessoa com quem almocei na primeira semana de aula, ao lado de outros colegas do Canadá, França e EUA. Lembro que conversamos sobre as tradições, os feriados e a diferença de importância entre Natal e Ação de Graças em cada país, sendo a Itália evidentemente bastante tradicional no que diz respeito ao Natal. Por esse motivo, é claro, ela passaria o Natal na Itália com a família. 
Em novembro, Cinzia teve de antecipar sua volta à Itália devido a problemas de saúde, na expectativa de voltar no próximo semestre para dar continuidade ao curso junto conosco.
Temos um professor que sempre diz: “Remember the truck”. Se você fosse atropelado por um caminhão amanhã, qual o último filme que você gostaria de ter feito? Qual a última coisa que você gostaria de ter escrito? Lembre-se de que o caminhão pode vir a qualquer momento, portanto sempre pondere bastante o que você está deixando aqui.
O curta que Cinzia dirigiu antes de voltar para a Itália chama-se “Sigmund” e trata-se de uma comédia sobre como Freud “inventou” o complexo de Édipo.  Devido sua ausência em parte do período de edição, seu filme foi exibido na aula de análise narrativa com algumas semanas de atraso, já sem sua presença. Sem sombra de dúvida foi um dos filmes mais engraçados da turma – que já havia visto uma quantidade mais do que suficiente de comédias sem a menor graça. 

Enfim, alguém nos fazia rir. 

Câmeras e microfones foram instalados no auditório para que os comentários fossem enviados a ela mais tarde.
Esta foto foi tirada em sua homenagem, algumas semanas antes da exibição de seu filme, na última aula em que ela esteve presente.

Cinzia morreu de câncer no dia 5 de janeiro, um mês antes de completar 29 anos.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Up in the air


Ligo para a American Airlines. Depois de digitar 3, digitar 7, digitar 3 de novo e penar para que o software de reconhecimento de voz entendesse meu sotaque, enfim ouço uma voz humana.
- American Airlines, boa tarde.
- Boa tarde. Eu queria checar uma informação sobre bagagens.
Silêncio.
- Tenho um vôo marcado para o Brasil e queria saber qual é o limite de bagagem exatamente.
- Dois volumes de 50 libras.
- Você tem certeza? O site diz que para o Brasil são duas malas de 70 libras.
- Só um momento que eu vou transferir para os responsáveis pelo site.
Musiquinha.
- American Airlines, boa tarde.
Faço a mesmo pergunta, recebo a mesma resposta. Insisto.
- Mas o site diz que são duas de 70 libras.
- Ah, acho que é isso mesmo.
- Será que você poderia se certificar? É importante.
- Um momento.
Nova musiquinha. Surge uma terceira atendente.
- American Airlines, boa tarde.
Explico novamente a complexa situação.
- Aguarde um momento enquanto localizo sua reserva.
- Eu só queria checar se existe mesmo essa exceção para—
- Senhor, eu pedi para aguardar.
- Desculpe.
Silêncio.
- O senhor tem razão. Para o Brasil são duas malas de 70 libras.
- E você sabe me dizer se as malas vão direto para São Paulo, ou se eu preciso despachá-las novamente na conexão?
- Só um momento que eu vou transferi-lo.
- NÃO! Não precisa, obrigado. Eu pergunto no aeroporto. Boa tarde.
Na dúvida, achei melhor imprimir a página do site… e deixar juntinho com minha mala de 69.7 libras.



sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Quanto mais gente melhor


      Neste último fim de semana tive um almoço com outros bolsistas Fulbright que realizam seus estudos aqui em Los Angeles. Era possível que o que mais chamasse a atenção fosse a impressionante vista da cidade de Los Angeles que a casa oferecia, ou o fato de que quem organizava o almoço era a mãe de um renomado jogador de basquete da NBA. Mas não. O que fica na memória são as experiências trocadas com pessoas que pareciam ser amigos de infância, embora as conhecesse há poucas horas.   
O evento me fez lembrar da cidade de Boulder, no Colorado – minha primeira parada nos EUA – onde mais de quarenta Fulbrighters de todo o mundo reuniram-se para uma semana de palestras e orientações.   
É sempre muito fácil apontar as diferenças entre os povos, mas em Boulder o que me chamou a atenção foram as semelhanças. Mundos tão distantes e pessoas tão parecidas. Quem diria que minha primeira cerveja na terra do Tio Sam seria ao lado de uma paquistanesa? Que meu primeiro sushi seria ao lado de uma dominicana e de um rapaz de Bangladesh (que comia sushi pela primeira vez)? Que minha primeira trilha pelas montanhas seria filosofando ao lado de uma bósnia?
         Isso não se limita, é claro, aos eventos organizados pela Fulbright. A cada dia, a cada lugar, uma pessoa nova me surpreende, e mesmo que parta poucos dias ou horas depois, vai deixar uma marca para sempre.
         Em meus primeiros dias em Los Angeles, por uma série de imprevistos, acabei tendo de ficar quarto dias em um albergue. Foi assim que conheci um alemão que largou o emprego – exatamente no mesmo dia que eu – e decidiu vir para os EUA… para ter aulas de street dance. É sempre fascinante encontrar pessoas que estão a caminho de seus sonhos… Entre churrascos no albergue, passeios pela calçada da fama e trilhas no Griffith Park, fomos nos tornando amigos e percebendo que embora vivêssemos a um oceano de distância, tínhamos muito em comum.
         Passados os quarto dias, mudei para a casa de minha colega e ele seguiu seu rumo pelos EUA, dizendo que voltaria para LA antes de partir de vez. Uma semana depois, reencontrei-o no albergue para uma última cerveja. Como não podia deixar de ser, acabei conhecendo novas pessoas. Dessa vez, duas inglesas apaixonadas por cinema que ficaram de visitar o AFI na manhã seguinte. A visita estendeu-se para um jantar com ainda mais viajantes do albergue, até que, enfim, disse adeus a esses breves amigos.
Engenheiros, biólogos, artistas, físicos, filósofos, estudiosos de histórias em quadrinhos; homens e mulheres da Rússia, Turquia, Nova Zelândia, Palestina, Egito, Namíbia, Moçambique, Guatemala, Inglaterra, Alemanha… As nacionalidades e as ocupações das pessoas que conheci nesses quatro meses são tão distintas quanto as experiências que tive com cada uma delas. Seja lá como for, estar longe de casa faz o mundo parecer tão pequeno quanto o mapa-múndi de papel da parede do meu quarto.