sexta-feira, 29 de abril de 2016

A história sem fim

Quando acordei naquela manhã de sábado, não imaginava que em algumas horas estaria na sala de espera de um hospital público, trocando mensagens de texto com um policial militar, digitadas na tela estilhaçada do meu próprio celular.

O dia começou no chão de uma sala de aula na Zona Sul de São Paulo, onde acordei determinado a pintar aquela instituição, ao lado de outras pessoas que trocaram dias de descanso por um fim de semana com rolos, pincéis, pó no nariz e uma sensação de realização (e dores no corpo) digna de um maratonista ao cruzar a linha de chegada.
Mas como bem sabe Vanderlei Cordeiro de Lima, nem sempre tudo sai como esperado.

Sentado no chão, observava enquanto Luks caminhava sobre o telhado, pintando a parte superior de um dos prédios.
Sentado no chão, percebi quando a telha cedeu.
Sentado no chão, percebi quando
                     L                                                        
                                                          U
                                                          K
                                                          S
                                                         caiu pelo vão do telhado e veio ao chão, levando consigo a escada que atrapalhava sua queda livre.           
               Sentado no mesmo chão, percebi o barulho da queda transformar-se em silêncio enquanto a multidão aglomerava-se ao seu redor em meio a suspiros de meu Deus, o que aconteceu?
Na dúvida entre um braço quebrado e um mero arranhão, partimos, Luks e eu, rumo ao hospital, a bordo da ambulância do SAMU. Ele imobilizado com um colar cervical, eu tentando entender em que momento dos minutos anteriores a tela do meu celular se espatifara.                                                                             
— Já andou de ambulância? – pergunta a paramédica.
— Não – ele diz.
— E você? – brinco com ela.       
              
Já na sala do pronto-socorro, aguardamos atendimento em meio a pacientes com crises de asma, ossos quebrados e cortes misteriosos.
— Seu sobrenome é Barros? – pergunto.
— Não, por quê?
— Erraram seu nome na pulseira do seu braço.
— Que ótimo.
...
— Você fez cinema, né?
— Aham. E você escreveu um livro né?
— Aham. O que você curte de filmes?
— Gosto muito do Wes Anderson, sabe?
— Sei! Curto muito aquele...
— Isso.
— Eu também.
— Tem muita gente aqui?
— Oi?
— É que eu não consigo olhar pro lado com esse troço no pescoço.
— Ah! Tem umas quatro. O da sua esquerda parece estar desmaiado...
Chegam mais alguns. Pedem que eu aguarde na sala de espera, onde em meio a atendentes sobrecarregados e pacientes desesperados, um familiar ansioso encontra outro, já mais aliviado.
— ‘Tão costurando ele agora. Saiu a pele da mão todinha, veio parar aqui no braço!
— Mas graças a Deus não perdeu a mão!
— Quando eu entrei aqui, acredita que o segurança falou: “Tá procurando o rapaz da padaria? Esse aí perdeu a mão...” Pode?!
— Imagina a força que ele fez pra puxar o braço!
— Eu sabia! Quando falaram o que aconteceu, eu logo pensei: “alguma coisa emperrou na máquina e o Thiago foi lá consertar. É a cara do Thiago fazer isso!”
É a cara do Thiago...

Uma enfermeira me chama. Perceberam que o sobrenome de Luks não é Barros. A atendente sobrecarregada faz a correção.

Meu celular vibra. Um joinha de um número desconhecido surge na tela quebrada – o mesmo número que me ligara cinco vezes na madrugada anterior, quando a tela ainda não cortava meus dedos.
Quem é?
Antonio Filipe?
Sim. Quem é?
O senhor teve um celular roubado
em outubro de 2015?
[foto do celular]
[foto do B.O.]
Sim. Quem é?
Soldado Afrânio. Nós recuperamos o seu celular
numa operação ontem à noite.
Sério?! E agora...?
Pode comparecer à XXª DP com o B.O.
e retirar o aparelho.  Mas liga lá antes!
E parabéns por ter registrado o roubo.
Nossa. Obrigado!
De nada.
Viu, se o senhor quiser e puder
mandar um e-mail de agradecimento
ao batalhão, este é o e-mail: [e-mail]
[fotomontagem com celular, viatura e brasão]

A enfermeira me chama novamente. Seguimos para o raio-X. Passadas três horas desde o embarque na ambulância, apenas um sentimento toma conta de nós dois: fome.
O raio-X aponta o que a essa altura já tínhamos certeza: todos os ossos estão em seus devidos lugares.
— Mas, assim, eu não sou ortopedista, né? O ideal seria o senhor passar com o especialista antes de ir – informa o médico.
— Naaa, ‘tô de boa.
— Então é só ir até a sala 10 que a enfermeira tira o acesso pra você.
— Dói muito pra tirar – pergunta Luks à enfermeira, já na sala 10.
— Dói menos que pra colocar, né, meu filho. Vocês fazem cada pergunta...
Quem seriam “vocês”? Vocês homens? Vocês jovens? Vocês pessoas que caem do telhado?
Uma acompanhante agitada aparece à porta.
— Moça, minha filha ainda ‘tá com muita dor! O remédio não ‘tá fazendo efeito!
— VOCÊ NÃO ‘TÁ VENDO QUE EU SÓ UMA SÓ?! ELA VAI TER QUE ESPERAR! – brada a enfermeira enquanto arranca a agulha do braço de Luks.
Partimos.
Luks volta às atividades em meio a gritos de e aí, ‘tá tudo bem, não foi nada, mesmo? Eu ligo para a delegacia. Pedem para que eu ligue na noite seguinte, depois na manhã seguinte.
— Amigô, isso aqui é uma delegacia! Sabe quantos celulares tem aqui?!
Pedem que eu compareça pessoalmente. Compareço pessoalmente. Aguardo enquanto um rapaz faz um B.O. de uma mochila roubada.
—Volta daqui a 40 dias, quando o escrivão que guardou seu celular volta de férias. Vai saber em que armário ele guardou o celular...

Como diria Red ao final de Rita Hayworth and the Shawshank Redemption, eu espero que tudo dê certo.
Eu espero que fazer o B.O. seja o suficiente para recuperar um celular roubado.
Eu espero que a moça com dor tenha se recuperado.
Eu espero que Thiago possa voltar a trabalhar.
Eu espero que médicos e enfermeiros tenham sobrevivido àquele turno, e aos outros.
Eu espero que nosso trabalho tenha feito a diferença naquela comunidade.
Eu espero.

Luks, eu, os maratonistas e o telhado.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Pornográfico

Desde pequeno eu sempre adorei matemática. Perceber o mundo em números, com uma lógica clara, com certos e errados definidos, sempre me fascinou.  Na sétima série, tive um professor (casado com a professora de Língua Portuguesa, já fazendo um prenúncio da minha vida futura...) que brincava com a turma ao ensinar planos cartesianos, dizendo ser aquele seu momento favorito: o momento pornográfico.

Brincar com a matemática também fazia parte do meu dia a dia, mas conforme fui migrando para o mundo das palavras, os números foram virando coadjuvantes, meras casas decimais a serem arredondadas.

Um mês antes de me mudar para Los Angeles, em 2009, comecei a registrar com papel e caneta meus pensamentos, aspirações, medos e tudo aquilo que preenchia minha cabeça prestes a embarcar em uma nova aventura. Poucos meses depois, quando os registros revelavam uma adaptação difícil à nova realidade, recorri aos números para avaliar cada um desses registros diários, buscando uma lógica, um sentido, uma progressão; buscando transformar o caos da vida em uma ciência exata, em uma curva ascendente que me provasse que cada dia era melhor que o anterior e me fizesse conseguir aproveitar aqueles que deveriam ser os melhores dois anos da minha vida. E foram.

Em 2011, voltei ao Brasil com uma missão: ter anos tão incríveis quanto aqueles nos EUA. Com todas as parciais anotadas, tinha um recorde a bater. Mas como superar anos com tantos eventos extraordinários? Com tantas viagens, tantos novos amigos, tantas novas experiências?

Os anos seguintes teriam seus altos e baixos, e, embora minha memória ainda lembrasse os anos nos EUA como os melhores em muito tempo, a matemática dizia o contrário. Fiz como meu professor de Matemática e usei o método pornográfico para entender, com a ajuda dos números que tanto me fascinam, os anos que as palavras registraram com tanto detalhe.

Cheguei a 2015 com um 2014 mediano nas costas, cheio de picos e vales, e sem grandes expectativas. Trabalhei mais. Viajei menos. Descansei menos ainda. Somem-se a isso dois assaltos, instabilidade profissional e a perda de um ente querido: 2015 tinha tudo para entrar para história como um ano esquecível. Até que a matemática provou que o ano não apenas tinha sido bom: tinha sido o melhor. 

Como um ano aparentemente tão trivial poderia ter sido tão incrível? Como minha memória poderia me enganar tanto?

Mas os números não me enganam. Olhei para trás e tentei deduzir a fórmula, reduzir a fração, chegar a um denominador comum. E concluí que a chave estava justamente ali: no olhar.

Notei que em 2015 olhei menos para fora e mais para dentro. Olhei mais para os picos do que para os vales. Não olhei com raiva. Olhei com gratidão. Olhei com desapego. Olhei com as lentes que escolhi olhar.

E ao buscar algo para justificar um ano surpreendentemente bom, não descobri nada extraordinário. Descobri que extraordinário é viver. É só olhar direito.
 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O baile

Aqueles que me conhecem sabem que levo uma vida irritantemente organizada. Gosto de saber que o mundo ao meu redor está sob controle, que tudo está na sua devida prateleira, caixa ou gaveta, e por isso uso diariamente uma agenda – dessas de verdade, que você pega na mão e derruba café. É como um guia da NET com a programação da minha vida.

Naquela sexta-feira, véspera de feriado, meu guia da NET dizia que sairia do trabalho às seis da tarde, limparia a casa, terminaria os trabalhos do curso, arrumaria a mala, jantaria na casa dos pais, daria carona para um amigo e, enfim, pegaria um ônibus para Jundiaí.

Mas nos 400 metros que separam minha casa do trabalho, tudo mudou.

Como um plantão urgente que invade a programação, um rapaz que descia da moto estacionada veio em minha direção e pediu meu celular. Depois meu relógio, minha corrente, meu dinheiro, minha mochila... com a minha agenda. Segundos depois, ele partia na moto com tudo aquilo que até então era meu, e eu seguia na direção oposta, a pé, reorganizando mentalmente a gaveta que ele sem perceber jogara para o alto.

Chego em casa e lembro que não tenho um telefone fixo. Em seguida, descubro que o Skype não faz chamadas de emergência. Vou até meus pais. No caminho, um rapaz se aproxima da minha janela, totalmente aberta, e pede um trocado. Sorrio com a ironia.

–  Cara, acabei de ser assaltado...

Ele me olha fundo nos olhos, para de sorrir e responde:

–  Eu sei. Eu vi tudo. Eu vi tudo! – e vai embora.

Faço o B.O. “O IMEI? Tenho sim, peraí! Ah, não, esquece, ‘tava na agenda.” Pego um celular emprestado, corro para a Vivo: a loja fechou. Vou até outra, troco o chip. Aviso meu amigo que não poderei buscá-lo como planejado. Volto para casa, termino o trabalho como dá, arremesso as coisas na mala, passo na farmácia para comprar, de novo, o remédio que estava na mochila e chego em cima da hora para seguir viagem.

Já no ônibus, penso que perdi o celular, o dinheiro, o relógio, mas que o que mais me incomodou foi perder a sensação – ou a ilusão – de que tenho tudo sob controle.

O assaltante mudou o canal no meio do filme, tirou os livros da ordem alfabética. Tinha uma vida detalhadamente desenhada a lápis. E então veio uma borracha: uma borracha que pode vir a qualquer momento, de qualquer lugar. Um emprego para o qual você deixa de ser essencial, uma pessoa que de uma hora para outra não está mais ali, uma perna quebrada, um celular roubado: basta uma peça torta para dar game over no tetris perfeito que você criou com as peças que a vida mandou.

Como diz a música de Dave Matthews, though we would like to believe we are, we are not in control.

É como se estivéssemos numa grande festa, a banda a todo vapor. Talvez o ritmo mude, talvez a música acabe, mas a playlist não está sob nosso controle. A nós cabe apenas continuar dançando. 

O baile, de Paula Rego

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

#tks


De acordo com o Facebook, tenho hoje 1.402 amigos. Arrisco dizer que conheço ao menos 95% deles pessoalmente: alguns desde sempre, alguns há poucos dias, alguns que fizeram parte do meu dia a dia por um tempo e hoje não fazem mais. Como anteontem foi meu aniversário, muitos deles se manifestaram.

Costumo dividir o mundo entre os que adoram mensagens de parabéns no Facebook e os que as acham mais vazias que o metrô de Los Angeles. (Também costumo dividir o mundo entre os que gostam de bacon e os que estão errados, mas isso é outra história.) Em ambos os casos, faço parte do primeiro grupo.

Brinco com meus amigos que existe a seguinte hierarquia nas mensagens de parabéns: mensagem no grupo do WhatsApp < post no Facebook < mensagem no Facebook < e-mail < mensagem direta no WhatsApp < ligação telefônica < ao vivo. Seja como for, gosto muito dessa atenção, ainda que breve, de pessoas que muitas vezes tenho contato apenas duas vezes por ano – no meu aniversário e no dela, ou de pessoas que “eu mal conheço, mas já considero pacas”.

Minha avó, quando nos presenteava com algo singelo, costumava dizer: “não é um presente, é um pensamento.” Mensagens no Facebook (ou no WhatsApp, ou no Instagram, ou...) são exatamente isso: um pensamento. São um olhá só, é aniversário dele, como será que ele tá? tchô dar um oi, aqui.
     
Um amigo que não vejo há quatro anos mandou um “!!”, que na verdade significava: Cara! Quanto tempo! Saudades daquele festival em que a gente se conheceu... Espero que você esteja bem. Feliz aniversário! Respondi: Nossa, saudades, mesmo! Tudo certo por aqui. Obrigado pela lembrança! Abração! – traduzido em um único emoji.

Tem mensagem xingando ou tirando sarro, no melhor estilo “bullying é amor”; tem desejo de tudo de bom, tem mensagem que faz chorar, tem parabéns pra você pelo Skype, tem abraço apertado, tem chocolate, tem ficar acordado até de madrugada pra jantar junto, tem convite pra almoçar, tem convite inesperado pra ser padrinho de casamento.

Cada interação (ao vivo, a distância, a cores ou em preto e branco) é um pensamento, uma lembrança de alguém querido, de uma época, de um momento engraçado, e é um presente delicioso receber 200 desses num único dia. É também uma lembrança de como é importante tentar manter quem a gente gosta por perto, ainda que "perto" possa ser a milhares de quilômetros de distância.

O que todos esses parabéns têm em comum é um sentimento de gratidão, explícito ou não. Muitos agradeceram por algo que eu disse, que eu fiz, que eu sou; a todos, agradeci pela lembrança, pela presença na minha vida e, acima de tudo, por me lembrarem de sempre agradecer – ou, pelo menos, dizer #tks. 



quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Celebrações

Eu estava de terno, com um copo na mão, em meio a alguns amigos e muitos desconhecidos. Quem estava prestes a entrar era apenas uma amiga, mas eu estava ansioso. Um a um, os formandos eram anunciados, seus nomes apareciam em grandes letras no telão e os convidados explodiam em aplausos. Éramos centenas, celebrando as conquistas de outra centena. “Quão especiais aquelas pessoas estariam se sentindo”, pensei.

E pensei também em quantas pessoas jamais sentiriam aquilo. Jamais teriam um dia – qualquer dia – voltado para elas, dedicado a elas, pensado para elas; naqueles que não se formam, ou não se casam, ou sequer celebram seus aniversários; que não têm um dia só para eles. Naqueles que jamais recebem aplausos.

Por um lado, pensei como é fundamental celebrar o outro, fazê-lo reconhecer a dignidade que lhe é própria e que ninguém tira.

Por outro, pensei como por vezes celebramos as coisas erradas. Likes, views, shares, promoções, prêmios... “O mais ...!” “O maior ...!” “O melhor ...!”

Com quem estamos competindo? Por que estamos competindo? Estamos sempre correndo... em direção aonde? Onde queremos chegar?

Recentemente, duas pessoas chegaram ao fim da linha. Desta linha.

Uma, aos 100 anos, celebrou e celebrou tudo o que tinha a celebrar. Viveu num mundo sem Facebook, sem seguidores no Instagram, sem bônus no fim do ano, mas cheio de celebrações. Jogou scopa, briscola e buraco com os netos, comemorou Natal e Ano Novo com a família, foi à missa aos domingos, foi à terra natal quando teve vontade. Até que, enfim, descansou.

O outro, aos 30, viveu no país das oportunidades, num mundo onde tudo é possível, onde tudo está ao alcance. Mas não alcançou o que buscava. Até que, enfim, cansou de buscar e decidiu que não tinha mais o que celebrar.

Drasticamente diferentes, os dois episódios me fizeram refletir sobre a celebração do fim da nossa jornada por aqui. “Você não iria querer ver todas as pessoas que você ama reunidas na tristeza, chorando por você”, disse o padre durante o velório. “Vamos celebrar o agora, vamos nos alegrar com esta nova etapa que começa, não chorar pela que acaba.”

Cada uma a sua maneira, com uma visão clara ou com lentes turvas, essas duas vidas encararam o fim desta etapa como uma grande celebração, como uma mãe que dá à luz um filho: não choraram pela grávida que deixa de ser, mas celebraram, por escolha ou destino, a nova vida que agora é. 

"O Pequeno Príncipe" - Antoine de Saint-Exupéry