quarta-feira, 11 de abril de 2012

Os amadores


Na semana passada estive pela segunda vez na vida em um festival de cinema

A primeira vez havia sido cinco meses antes, na primeira edição do mesmo festival. 

Em meio aos altamente capacitados membros da equipe - com passagens pelos festivais de Cannes, Berlim, Veneza e afins - tive uma súbita sensação, comum (creio) entre aqueles ligados a alguma atividade artística.

Não foi a sensação de “sou o centro do mundo..."
Também não foi a sensação de “o universo é melhor porque eu existo...” 
Nem a de “como ninguém viu o quão brilhante eu sou?”

Foi a sensação de que não sei nada.

Neste ano tive a honra de ser convidado para ensinar algo que ainda nem bem sei se sei: escrever. Tom Rickman, uma das mentes mais geniais que tive a chance de conhecer, confessou-me certa vez que preferia ensinar algo mais concreto... como história da arte.

(Você percebe que roteiro é algo abstrato quando história da arte vira algo concreto em comparação.)

Ansioso a ponto de gesticular enquanto penso, e assombrado pelas palavras de Frank Pierson - “Não se aprende a escrever roteiros. É preciso reaprender a escrever a cada roteiro.” - passei semanas preparando o material a ser utilizado nos supostos dois ou três dias de curso. Soterrado em apostilas, livros e DVDs, tentei condensar em algumas páginas tudo aquilo que poderia ser relevante àqueles interessados em ingressar no controverso mundo da escrita audiovisual.

(Você percebe que roteiro é algo concreto quando vê o número de publicações técnicas sobre o assunto.)

Eu sabia que só estaria satisfeito com a perfeição. Os trechos dos filmes tinham de ser extraídos com a minutagem exata; os ítens relevantes tinham de estar na ordem correta, a bibliografia tinha de ser citada de acordo com os padrões internacionais, o espaçamento do texto tinha de ser o mais agradável aos olhos. E eu tinha de fazer a barba antes de viajar.

Aí fiquei de cama por dois dias e tive de me adaptar ao imperfeito.

A oficina teve de ser alterada por motivos técnicos; os três dias viraram um, e semanas de preparo e tensão se dissiparam em quatro horas. Foi tudo diferente do que eu esperava.

Mas quem disse que não era pra ser assim?

Os dias seguintes foram de imersão total no mundo do cinema: filmes, palestras, encontros, reencontros; muita conversa e pouco sono. E de novo a sensação de que não sei nada.

É tanto livro que não li filme que não vi música que não ouvi peça a que não assisti pintor que não conheci para!

Como é possível manter-se atualizado (e são) em um universo onde a cada mês, a cada semana, a cada dia, novas obras surgem? Onde uma interminável prateleira de livros imperdíveis e filmes clássicos espera para ser devorada? Como querer que minha mente ansiosa relaxe sabendo que há tanto que não sei, que há tanto a fazer e que ainda nem passei fio dental?

Respirei.

Lembrei-me de um dos palestrantes, que parafraseou Samuel Beckett: "Erre. Erre mais. Erre melhor."

Ao agradecer a equipe do festival por todo esforço, nosso directeur général referiu-se a nós como amadores, querendo na verdade dizer “aqueles que amam”. Rimos discretamente desse pequeno equívoco, mas os equivocados éramos nós. Ele tinha razão.

Somos todos amadores: amamos o que fazemos e não sabemos de nada.

E quem disse que não é pra ser assim?


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

!kbhit()

Um das coisas que pude observar com clareza durante minha temporada nos EUA foi a diferença no conceito de amizade que existe entre aqui e lá.

Certa tarde em um evento em Los Angeles, durante uma conversa despretensiosa, uma mulher me perguntou:

- Quantos amigos você tem?

Parei. Pensei. - Ah, não sei, muitos.

- Não, mas assim, amigos próximos...

- Sei lá, pelo menos uns vinte.

- Não, você não entendeu. Me refiro a amigos, assim, que você confia mesmo, que você conversa com frequência, com quem você pode contar.

- Acho que foi você quem não entendeu – respondi sorrindo, antes de repetir. – Pelo menos vinte.

Muitos dos meus amigos são amigos há uma, duas décadas. Tem os amigos do prédio onde eu nasci, que são amigos, literalmente, desde que nasci. Tem os amigos do Jardim II, os da 1ª série, os da 3ª, os da 7ª e os do 1º colegial. Surpreendentemente, tem os grandes amigos do cursinho – quem faz amigos no cursinho?

E tem também o !kbhit().

Conheci os primeiros membros do !kbhit() no melhor estilo “amigo-da-namorada-do-primo-da-vizinha-da-minha-vó.” Depois de uma viagem despretensiosa, percebi que tinha muito mais em comum com aquele grupo de engenheiros do interior que faziam paródias musicais do que com o mundo do qual fazia parte naquele momento. E assim o !kbhit() passou a ser composto por “dez engenheiros e o Coxa”.

Sem nunca ter assistido a uma aula daquela universidade, frequentei jogos universitários, fui batizado como membro honorário de uma república; fui a churrascos, formaturas; gritei o hino da faculdade como se tivesse feito parte daquele universo. E de certa forma, fiz.

Aos poucos, passei a ser apresentado como “amigo da faculdade” - era mais fácil assim.

Aos poucos, fui confirmando minha teoria de que amizade requer manutenção; que se deixada guardada como uma caixa de ferramentas que só sai do armário quando necessário, ela enferruja.

Aos poucos, fui percebendo que às vezes é difícil explicar porque se é amigo: às vezes simplesmente se é.

Um dia, Logan, meu roommate, notou um banner na parede de meu quarto com fotos do !kbhit() que ganhei de presente antes de sair do Brasil. No topo, uma frase dizia: "Todo bom jogador tem uma torcida fiel” - !kbhit(). E então veio a pergunta:

- O que significa “quei-bi-rráit”?

- É “ca-be-rrit” – disse rindo, corrigindo sua pronúncia, enquanto pensava em uma resposta.

Talvez o mais correto fosse dizer que !kbhit() é uma função utilizada em linguagem de programação.

Mas eu poderia dizer que !kbhit() é um grupo de e-mail em que você será xingado dia sim, dia não, e que você vai se sentir especial por isso. Ou que é um grupo do qual você pode ser excluído se não der sinal de vida – ainda que seja xingando alguém – porque xingar ou ser xingado simplesmente significa que você se importa.

Eu poderia dizer que !kbhit() é um banco de paródias musicais, criadas nas horas mais surpreendentes, reveladas a seus homenageados nas horas mais inesperadas, e tão contagiantes que torna impossível cantar a letra original outra vez.

Eu poderia dizer que !kbhit() é o organizador de um evento musical anual, onde membros divididos entre “os que sabem tocar alguma coisa” e “os que não sabem” formam duplas e são avaliados em critérios rigorosos definidos em um documento impresso, disputando um troféu a ser entregue pelo júri – composto por suas namoradas.

...Ou que ser !kbhit() é dar carona para alguém que está em outra cidade, afinal “é um desvio de duas horinhas, nem isso!” É fazer um bate-volta a uma cidade a 300 km - só pra dar um oi a alguém que você não vê há algumas semanas – e voltar para trabalhar às 6 da manhã do dia seguinte.

...Ou que ser !kbhit() é entender de verdade o significado de compaixão. É viajar para passar um carnaval inteiro na sala de espera de um hospital, enquanto seu amigo passa o carnaval inteiro na UTI, em coma, no mesmo hospital. 

...Ou que ser !kbhit() é lembrar constantemente que “viver continua sendo sensacional”. É ter sempre uma torcida fiel, não importa qual seja o seu jogo.

Mas olhei para Logan observando aquele banner coberto de fotos, mensagens e assinaturas, e, utilizando o melhor eufemismo que pude encontrar, respondi:

- É um grupo de amigos.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Do outro lado da lua

Em abril de 2007, em minha primeira aula do curso de extensão em roteiro da UCLA, Scott Kraft sugeriu que elaborássemos duas perguntas no formato “E se...?” A ideia era que uma delas viesse a ser a base da história que desenvolveríamos durante os próximos semestres.

Para algumas pessoas as ideias vêm aos montes. Para essas, falta apenas tempo para sentar e desenvolver tantas e tantas possíveis histórias que sem dúvida se tornariam grandes sucessos de bilheteria. Se há tempo, então recai sobre elas a árdua tarefa de decidir qual história desenvolver primeiro.

Eu não sou uma dessas pessoas.

Ideias geniais me vêm a cada ano bissexto. No resto dos dias, preciso lapidar histórias de blocos de mármore; enfrentar diariamente – e sozinho – a intimidadora página em branco.

Com seu processo – que, é claro, vai além das duas simples perguntas – Scott Kraft tornou a página em branco menos assustadora e, em algumas semanas, comecei a escrever “Sixteen Light-Years Away”, um roteiro sobre um adolescente de Ushuaia, na Argentina, que perde o irmão mais novo e é forçado a viver com a avó numa pequena cidade praiana nos EUA, onde desenvolve uma inesperada amizade com a vizinha de dez anos que lhe ensina a ver o mundo com outros olhos.

Cerca de um ano depois, após muitas noites solitárias enfrentando a sempre imponente página em branco, a primeira versão do roteiro estava pronta. Resolvi adaptar a história para enviá-la a um concurso de desenvolvimento de roteiro aqui no Brasil. A pequena cidade nos EUA virou uma pequena cidade no nordeste; Johnny virou Francisco, Annie virou Valentina, e assim como os personagens, o roteiro também ganhou um novo nome em português: Do Outro Lado da Lua.

O concurso premiava 10 projetos entre cerca de 900 inscritos. “Do Outro Lado da Lua” foi o 12º.

Francisco voltou a ser Johnny, Valentina voltou a ser Annie e “Sixteen Light-Years Away” chegou às mãos de Barney Lichtenstein, o mentor da UCLA que faria as últimas considerações sobre o roteiro antes do término do curso. Barney não apenas foi incrível em seus comentários, mas também escreveu uma carta de recomendação que acabou sendo decisiva na minha seleção para a bolsa CAPES/Fulbright que receberia meses depois.

Sem saber do futuro que me aguardava, fui de férias a Ushuaia e pude ver com meus próprios olhos, pela primeira vez, aqueles lugares que já pareciam vívidos na descrição das páginas do meu roteiro.


As primeiras páginas do segundo tratamento de “Sixteen Light-Years Away” foram lidas por Dan Vining, um dos professores e membros da comissão de seleção do American Film Institute. Foi ele que, durante minha entrevista, disse ter ficado bastante intrigado com o roteiro e com vontade de continuar a lê-lo. Assim, “Sixteen Light-Years Away” me abriu as portas do AFI – e de um mundo de aprendizagem do qual eu faria parte nos dois anos seguintes.

“Sixteen Light-Years Away” ficou adormecido enquanto o AFI me forçava a lapidar mais e mais blocos de mármore. No dia de Ação de Graças – haveria um dia melhor? – conheci Barney Lichtenstein pessoalmente. Durante um agradável almoço no Mimi's Café que ele insistiu em pagar, agradeci por tudo que havia feito por mim e contei a ele toda a saga do roteiro que havia me levado até ali, com a promessa de mantê-lo informado sobre os futuros acontecimentos.

Foi então que “Sixteen Light-Years Away” caiu nas mãos do meu amigo e produtor André Gevaerd. André, quem eu havia conhecido na Austrália aos 16 anos e quem havia reencontrado poucos anos antes, abraçou o projeto e se disse decidido a filmá-lo na sua cidade natal, em Santa Catarina.

Novamente, Johnny virou Francisco, Annie virou Valentina, e agora a pequena cidade do nordeste virou a praia de Canto Grande, em Bombinhas. Personagens deixaram de existir, novas locações surgiram e “Do Outro Lado da Lua” ganhou mais uma versão.

No início deste mês, André, a essa altura tão envolvido no projeto quanto eu, me levou a Canto Grande para que eu conhecesse aquele lugarejo que ele insistia ser perfeito para o filmar o roteiro.

Ele tinha razão.




Quase cinco anos se passaram desde que a história de Johnny/Francisco e Annie/Valentina começou a surgir. O roteiro já foi lido por muitos, mentorado por vários, abraçado por alguns e me abriu portas que eu jamais pensei pudessem ser abertas. Enfim, cumpriu seu papel de roteiro.

Agora, pouco a pouco, “Do Outro Lado da Lua” deixa de ser uma empreitada individual e solitária e começa a ganhar o apoio de pessoas que acreditam no projeto e querem dar vida àquelas pessoas e lugares que só existem no papel.

Pouco a pouco, “Do Outro Lado da Lua” deixa de ser um roteiro e começa a ser um filme.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Histórias que poderiam ter sido

Certa tarde, há muitos anos, estava com meu amigo Bob na biblioteca da faculdade de veterinária procurando um livro sobre a reprodução dos avestruzes para uma amiga quando uma garota sentou-se na mesa ao lado. Três segundos depois, Bob estava apaixonado – sem sequer haver trocado olhares com ela. Após alguns minutos de discussão, Bob decidiu que seria prudente não informá-la sobre os filhos que teriam juntos, nem sobre o nome que dariam ao cachorro, nem sobre o tamanho de sua futura casa – ou de certas partes de seu corpo.

Minutos depois, a garota se foi - sem saber que destruíra um lar imaginário - e Bob, parafraseando Manuel Bandeira, suspirou: “Ah, histórias que poderiam ter sido...

E esse virou nosso jargão: quantas “histórias poderiam ter sido” se tivéssemos tomado uma decisão diferente, se tivéssemos agido, se tivéssemos virado à esquerda, se tivéssemos ido àquela viagem. Quantas histórias poderiam ter sido se decisões tomadas por quem sequer conhecemos tivessem sido diferentes.

Durante meu intercâmbio para Austrália no Ensino Médio, conheci uma garota suíça com quem conversava vez ou outra. Às vezes nos encontrávamos no ônibus, às vezes nos víamos no intervalo das aulas da extinta Beacon Hill Technology High School enquanto tomávamos o cremoso leite com chocolate de caixinha que só a escola oferecia. Sempre senti que havia algo ali, mas o auge dos meus dezesseis anos e de minha bananisse me impediram de tomar qualquer atitude. Um dia antes de voltar ao Brasil esbarrei com ela na escola e disse que estava de partida. Desapontada, ela anotou seu endereço em um pedaço de papel. “Agora é minha chance!”, pensei...

...Só pensei.

Nos abraçamos, nos despedimos, e nunca mais nos vimos. Nunca mais nos falamos.

Já no avião, notei o papelzinho ainda no bolso da calça... e nele havia algo mais que o endereço; algo que me fez acreditar que aquela história, de fato, poderia ter sido...

*  *  *

Meses antes de me mudar para os EUA para estudar no AFI, conheci meus futuros colegas pela internet, entre eles um americano chamado Andrew. Após nos certificarmos (na medida do possível) de que não éramos serial-killers e/ou fazíamos parte de uma seita macabra, decidimos que seríamos roommates. Durante os meses seguintes conversamos várias vezes por semana, descobrimos interesses em comum, planejamos viagens para o Alasca, decidimos que ficaríamos em um albergue assim que chegássemos e procuraríamos um apartamento perto da escola. Enfim, nos tornamos amigos.

Uma semana antes de sair do Brasil, recebi um longo e-mail de Andrew me dando a triste notícia que ele não poderia mais ir ao AFI.

Com meus planos escorrendo pelo ralo, tive de encontrar novos roommates às pressas e fui morar com dois completos desconhecidos – um deles dormindo na sala. Durante todo o primeiro (e mais difícil) mês em L.A., só pensava em como tudo seria mais fácil se tivesse saído como planejado. Como eu queria que aquela história tivesse sido...

Mas o que eu não sabia é que se aquela história tivesse sido, meses depois eu não teria feito uma inesquecível road trip de 5.000 quilômetros ao redor do Grand Canyon com meus inesperados amigos; não teria conhecido o Texas, nem a família de Logan, nem teria vivido com seu fiel escudeiro Lebowski.

Só fui conhecer Andrew pessoalmente um ano depois, de passagem por sua cidade por algumas horas. Durante um almoço corrido em uma tarde incrivelmente quente, contei apressadamente as histórias do AFI – histórias que, pra ele, poderiam ter sido. Em contrapartida, Andrew me contou sobre sua vida fora do AFI, que incluía, entre outras aventuras, uma fascinante viagem à Antártica – a história que, pra ele, foi.

Inevitavelmente, cada pessoa que conheço, cada nova amizade que se forma, me faz pensar nas histórias que poderiam ter sido. Como teria sido conhecer aquela pessoa anos antes? Ter ido à sua formatura? Àquela festa de aniversário? E como teria sido não conhecê-la? Não ter ido àquela viagem?

Inevitavelmente, cada pessoa que conheço, cada nova amizade que se forma, também me leva à assustadora conclusão de que há pessoas no mundo que eu jamais vou conhecer; de que há amizades que jamais vão se formar: são histórias que eu nem sequer sei que poderiam ter sido.

E é durante esse devaneio sobre as pessoas que não vou conhecer, os lugares que não vou visitar e as experiências que não vou ter que tudo surpreendentemente volta a fazer sentido: é quando me lembro de que sou escritor, e de que o escritor vive em Pasárgada. É quando me lembro de que a cela do meu mundo real tem uma janela para o infinito.

É quando me lembro de que, no meu mundo, todas as histórias podem ser.



(Bob casou-se hoje com a mulher de sua vida e está de mudança para os EUA. Vai viver a história que tinha de ser.)



terça-feira, 22 de novembro de 2011

The Young Storytellers

Quando o co-criador do seriado "Glee", Brad Falchuk, veio ao AFI e mencionou, quase sem querer, a fundação que havia criado – The Young Storytellers Foundation –, não imaginava que em breve me envolveria com um de seus projetos. E muito menos que ele se tornaria uma das coisas mas sensacionais de que já fiz parte.


O fundação foi criada em 2003 com o objetivo de “desenvolver a alfabetização através da arte de contar histórias.” Diversos programas são oferecidos, entre eles o que foca em alunos do 5º ano.

A ideia é bastante descomplicada: um head mentor, dez crianças e dez mentores (um para cada criança) que se encontram em oito reuniões semanais para escrever um pequeno de roteiro de 5 páginas, a ser encenado na nona semana no auditório da escola. Simples, não?

Agora adicione à formula a amizade e o companheirismo que surge entre os mentores; o maravilhamento das crianças a cada palavra que escrevem; e o prazer de ver atores de Hollywood improvisando despretensiosamente no auditório de uma escola pública. E eis que surge algo mágico.

Mal sabem as crianças que aprendemos tanto quanto elas. O ego fica na porta, assim como os palavrões, os pensamentos negativos, as palavras de desencorajamento. Cada um de nós assume uma nova identidade – Bowling Brian, Jovial Jon, Mystical Mary e assim por diante. Os atrasados dançam a “chicken dance” e ninguém se importa em parecer ridículo diante de vinte crianças – sim, vinte, porque ali todos viram criança – que se divertem às suas custas.

A cada semana – em meio a brincadeiras de integração e breves apresentações de conteúdo – um pedacinho da história era construído, sem qualquer censura. Príncipes que se unem a ratos para combater uma bruxa; super-herois que saem do mundo dos quadrinhos para salvar a humanidade; anoréxicas que se unem a vítimas de câncer e encontram a felicidade: tudo é válido, desde que não haja violência.

Mas sem dúvida o grande valor de tudo isso não é o resultado, e sim o processo. Ao expor suas ideias, cada criança expõe um pouco de si mesma, se abre para o mundo e, talvez pela primeira vez, sente que tem uma voz. Mais do que isso: sente que alguém quer ouvi-la.

“Hawaiian” Ailani, a menina por quem fui responsável no segundo semestre que participei do programa, era provavelmente a garota mais tímida do grupo. Raramente respondia às perguntas em meio aos colegas e jamais olhava alguém nos olhos. Ao decorrer daquelas semanas, enquanto criava sua história sobre o poder da amizade, Ailani começou a conversar mais, começou a falar mais de si; começou a sorrir.

"Flying" Filipe & "Hawaiian" Ailani no "Big Show"
Em nossa última sessão, nosso head mentor informou às crianças como seria o “Big Show” (como é chamada a apresentação final): contou que receberiam um crachá VIP, que entrariam em um tapete vermelho, que tiraríamos fotos, que atores de Hollywood se apresentariam individualmente para que cada uma delas escolhesse seu elenco, e que em seguida sua história seria apresentada para todo o 5º ano e seus convidados.

Foi então que Ailani me olhou nos olhos pela primeira vez e, sem conseguir conter a empolgação, perguntou:

- É verdade!?

- O quê?

- Que a gente entra num tapete vermelho e tiram foto da gente?


Era.