COLLECT MOMENTS, NOT THINGS, read the overflowing shopping bag.
segunda-feira, 30 de abril de 2018
terça-feira, 3 de abril de 2018
Conexões
Diversos estudos dizem que o ser humano busca, acima de tudo, pertencer e conectar-se. Faz sentido. Conectar-se com o outro é uma das jornadas mais fascinantes do nosso passeio por este planeta. Alguns entram na nossa vida com mais intensidade, alguns ficam por mais tempo, alguns compartilham os momentos mais íntimos, outros os mais alegres, outros os mais marcantes… É como se uma parte de todos que passaram pela minha vida tivesse ficado em mim e, da mesma forma, houvesse pedaços de mim espalhados pelo mundo, em busca de novas conexões.
E essas conexões ocorrem hoje das maneiras mais distintas, intensas e inusitadas. Nosso ritmo é tão alucinante que no tempo que leva para abrir o Instagram você já está íntimo de alguém. Basta ter seu nome e sobrenome e já posso saber onde você passou as férias, com quem jantou, quando nasceu, que música ouve. A vida íntima já não é, necessariamente, privada.
Aceleramos os relógios, e as relações parecem seguir no mesmo fast forward. Há não muitos anos, você se interessava por alguém, pedia o telefone, ligava uns dias depois, conversava, ligava outro dia, marcava algo. Semanas, meses se passavam até que o outro fizesse parte da sua vida. A intimidade era construída sobre os pilares do tempo. Quisemos tanto comprimir esse tempo que conseguimos: criamos as mais diversas plataformas para conectar pessoas com os mesmos interesses em apenas um clique. Viramos perfis em busca de matches. Você conhece alguém num aplicativo de relacionamento e por dois, três dias, outra pessoa invade sua vida com toda sua história, dúvidas, anseios, expectativas. Em 72 horas, ela sabe mais de você do que muitos à sua volta — e vice versa. Você compartilha seu cotidiano por fotos, áudios, textos. Vocês, enfim, se encontram, compartilham o que a conexão digital não permite — o jeito, o cheiro, a presença. Mas e depois? Como manter uma intimidade que atingiu o pico em três dias sem qualquer alicerce?
Por outro lado, será possível manter uma intimidade de anos atrás apenas por um fiapo digital? Em 2000, fiz um amigo que encontrava praticamente todos os dias durante cinco meses. Éramos intercambistas na Austrália e, desde que nos conhecemos na conexão em Auckland, nos tornamos amigos. Morávamos no mesmo bairro, estudávamos na mesma escola, íamos às mesmas festas: após dezesseis anos vivendo no mesmo lugar, com as mesmas relações, ele era meu primeiro grande novo amigo. Terminado o programa, voltamos ao Brasil: eu a São Paulo, ele a Porto Alegre.
Passaram-se oito anos até que nos encontrássemos novamente.
Pelos dois dias que ele esteve de passagem em São Paulo, atualizamos nossas vidas e saboreamos a amizade que poderia ter sido e que não foi. Ou será que foi? Será que cinco meses de intimidade são suficientes para segurar uma amizade de Facebook por uma vida inteira?
Por outro lado, será que existe uma intimidade intrínseca entre pessoas que mal se conhecem? Aos cinco anos de idade, recebi a visita de familiares da Itália, entre eles um primo de 13 anos. Não fossem as fotos dessa visita, não saberia sequer que já havíamos interagido alguma vez na vida. Quase trinta anos depois, nos reencontramos em Viena, onde ele vive. Sou recebido por esse completo estranho, que me leva para comer a que ele julga ser a melhor pizza da cidade. Passamos horas atualizando nossos trinta anos de vida por países diferentes em uma conversa que termina com a promessa de um novo reencontro. Em três dias, estávamos na sua cozinha, comendo spaghetti ao molho gorgonzola, conectados com familiares em todo o mundo pelo computador, antes de eu passar a noite no sofá. Completos estranhos e, ao mesmo tempo, primos íntimos de longa data.
Mas sempre que penso em conexão, me lembro de um episódio de muitos anos atrás que nada tem a ver a com o que normalmente associamos com intimidade.
Eu estava no aeroporto. Era provavelmente uma conexão a caminho de volta a Los Angeles. À minha frente, uma mulher do alto de seus quarenta anos chorava discretamente; ao seu lado, um homem da mesma idade, provavelmente seu marido, a consolava em silêncio, segurando sua mão. Ela respirou algumas vezes e parou de chorar. Alguns instantes se passaram, e agora era ele quem chorava, e ela quem o consolava. Não era um choro desesperado, mas um choro resignado, uma tristeza profunda para qual a única solução era deixar-se entristecer. Sem saber quem era aquele suposto casal ou o que havia acontecido para deixá-los assim, me conectei com sua dor e me entristeci também.
Da mesma forma aleatória que entraram na minha vida, os dois saíram algumas horas depois, rumo a sabe-se lá que cidade americana, deixando em mim um pedaço da sua intimidade: uma intimidade que não exigia palavras, apenas a presença e o silêncio; uma intimidade que expunha sua dor mais íntima a um completo estranho — eu.
tags:
conexão,
intimidade
quarta-feira, 28 de março de 2018
curtinha #5
"That's it!", he thought. "The search is over: I finally found my soulmate! She's absolutely everything I was looking for!"
...And then he accidentally swiped left.
...And then he accidentally swiped left.
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
As coisas mais simples
Quando
eu era criança, um dos meus programas favoritos era ir ao McDonald’s: um McChicken,
uma batata média, um guaraná e um nuggets de seis com molho caipira e eu estava
no céu. Se fosse seguido de um cinema, então, o dia ganhava o status de melhor
dia do ano.
Lembro
o dia em que um vizinho comentou, todo animado, que almoçava toda terça-feira no
McDonald’s porque ficava até tarde na escola. Outro vizinho, mais velho e mais cínico,
devolveu: “Eu almoço quando quiser”.
Eu
logo virei o outro vizinho. Comer no McDonald’s passou a ser a opção C e ir ao
cinema virou parte da rotina. Vieram novas experiências, novas ambições e, sem
perceber, foi ficando cada vez mais trabalhoso ter a mesma satisfação que um
mero fast food me trazia aos doze anos
de idade.
Ano
passado, fui ao Burger King gravar um vídeo para um cliente. Precisávamos
registrar pessoas comendo, e meu chefe disse: "Podem pedir o que quiserem". Olhei
para minha colega e percebi que ela tinha nos olhos o mesmo brilho que eu.
Parados em frente ao balcão, era como se eu voltasse a ser aquela criança
prestes a pedir um McChicken. Nós rimos. Ambos, felizmente, podiam tranquilamente
bancar aquela refeição, mas o fato de podermos escolher hambúrgueres e batatas
fritas ao bel-prazer nos trouxe uma alegria tão inocente, tão simples. E como é
bom alegrar-se com as coisas simples…
Recentemente
estive em uma cidade do interior de São Paulo, junto a algumas dezenas de
jovens voluntários, para uma tarefa ousada: construir uma capela em três dias. Toda
comunidade se movimentou para receber e alimentar as setenta bocas famintas. A
cada dia, depois de horas de trabalho sob o sol, a refeição era sempre um dos
momentos mais esperados. Não havia luxo, não havia frescura: havia o carinho de
pessoas que passaram dias buscando doações de alimentos e horas preparando
panelas e panelas de comida para alimentar nossos corpos suados.
Você
entra na fila, pega o seu prato, equilibra um garfo ou uma colher — e com sorte
uma faca — e observa os rostos sorridentes amontoando arroz, feijão, farofa,
macarrão, carne, batata, cenoura, tomate e salada a sua frente. Com a outra
mão, você pega um copo de plástico com suco e um guardanapo e procura uma
sombra: pode ser uma cadeira, um banco, um pedaço de madeira ou um espaço no muro
onde você simplesmente possa apoiar as costas. Você tenta explicar para o
cachorro vira-lata que aquela comida é só para você e usa todo o equilíbrio adquirido
no alongamento da manhã para se sentar sem derrubar o suco, a salada, o garfo e
o guardanapo. O prato de vidro está quente com os dois quilos de comida, então
você usa o capacete no colo como apoio e se prepara para dar a primeira garfada
sem derrubar um grão de arroz.
Essa
será a melhor refeição da sua vida.
Você
dá risada ao se lembrar da vez em que reclamou da falta de um jogo americano no
restaurante; você termina de comer, alguém gentilmente aparece para retirar seu
prato, repor seu suco ou oferecer uma gelatina. Você tem meia hora até voltar
para a obra e não pensa duas vezes: estica as pernas ocupando toda sombra do
muro de cimento, tira os sapatos, apoia a cabeça no capacete e fecha os olhos. Você
está no céu. Minutos depois você acorda mais descansado do que poderia
imaginar, pronto para voltar para o sol e carregar mais vigas de madeira.
O
ritmo da minha vida — e sei que o da maioria das pessoas — é sempre muito
agitado. Há sempre algum lugar para ir, algo importante a fazer, algo novo a
conquistar. E não vou mentir: eu gosto disso. Gosto de ter metas, de ter
ambições, de tentar ser melhor, estar melhor.
Mas
é um privilégio, nesse ritmo louco, ter a chance de parar por um instante e lembrar
que o chão de asfalto pode ser tão macio quanto um travesseiro de plumas.
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| Foto: Rafaela Romanato |
tags:
filipe domiano,
McDonald's,
superação,
vida simples
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Feliz dia novo
Durante mais de 20
anos da minha vida, passei a virada do ano exatamente no mesmo lugar, com as
mesmas pessoas: minha família. A casa onde tios, primos e afins reuniam-se era situada em um lugar estratégico onde era
impossível ver qualquer tipo de fogos, e a proximidade com uma favela sempre
deixava dúvidas sobre o teor dos estouros. Foram fogos? Foram tiros?
Havia uma
superstição de que os desertores sofreriam as consequências. “Vai pra praia com os amigos? Certeza que vai chover!” “Fulana foi viajar com o namorado, acredita?! Aposto
que vão terminar!” A primeira vez que passei o réveillon longe da
família foi em 2007, quando fui a Fortaleza com a namorada e alguns amigos. Tenho
certeza que o motivo de eu ter passado as últimas horas do ano vomitando foi o
excesso de comida, e não uma maldição. O namoro terminou algumas semanas depois.
Particularmente,
nunca dei tanto peso para a data em si, talvez porque eu tenha a sorte de
passar praticamente o ano todo rodeado por pessoas que gosto e de não
precisar de datas definidas para reuni-las.
Ou talvez porque eu
reconheça a arbitrariedade dessa data.
Em algum ponto da
história, decidimos que uma posição específica da Terra em relação ao Sol seria
um marco; que uma vez que nossa bola azul cruzasse essa linha de chegada
imaginária, daríamos um grande reset
no jogo de seus habitantes. Aí, em 1582, o Papa Greg e sua turma perceberam que
estava tudo errado e decidiram dar uma ajustadinha nessa linha, puxando-a uns
dez dias para trás. “Vamos pular do dia 4 de outubro direto pro dia 15?” “Bora!”
Eu não teria feito
aniversário em 1582…
Cada país resolveu
adotar o calendário quando estava a fim, o que levou alguns anos. Tipo uns 350.
Mas não foi só isso. Para evitar novos grandes ajustes no futuro, resolveram
calcular direito essa história de ano bissexto, afinal, o ano trópico não tem EXATAMENTE
365 dias, mas 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos.
(Parênteses aqui.
Uma busca rápida na internet vai mostrar que são considerados dois cálculos
para a duração do ano: o ano sideral, que usa as estrelas como referência, e o
ano trópico, que leva em consideração as estações do ano. E, não, eles não têm
a mesma duração. VAI VENDO!)
Pois bem, com esse
negócio de um ano ter 365 dias, mais um quarto de dia, decidiram enfiar um dia
a mais em fevereiro a cada quatro anos. Só que, de novo, esse “um quarto de
dia” não é EXATAMENTE um quarto de dia. E como a gente compensa esses minutinhos
que a gente está colocando de brinde a cada ano? Fácil: a gente cancela o ano
bissexto a cada 100 anos, nos anos múltiplos de 100!
“Nem vem! O ano
2000 foi bissexto que eu lembro muito bem. Teve enchente, teve Olimpíada e
teve 29 de fevereiro, sim!” — você pode estar pensando.
É que a coisa não
para por aí: a gente cancela o ano bissexto nos anos múltiplos de 100… A MENOS
que eles sejam, também, múltiplos de 400.
Olha. Que. Simples. Tudo para manter uma linha imaginária mais ou menos no mesmo lugar todo ano.
Seja como for, é
fascinante pensar como ciclos arbitrários têm o poder de nos inspirar, de nos
fazer refletir, de criar novas metas e ressuscitar velhos sonhos. E também de
nos dar uma folga. Afinal, seria excruciante andar por aí carregando décadas de
decepções e escolhas erradas nas costas, sem poder encostá-las ali num cantinho
de dezembro antes de seguir adiante.
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| Réveillon em Sydney, 2000. Foto: Getty Images. |
Fico pensando como,
todos os anos, mais ou menos no mesmo ponto do universo, o dia 1º de
janeiro vai surgindo no horizonte, timidamente, de hora em hora por todo o
planeta, trazendo logo atrás um ano carregado de sonhos, alheio ao
mundo de expectativas colocadas sobre ele.
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ano novo,
filipe domiano,
réveillon
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