quinta-feira, 22 de julho de 2010

Turistas


Agora que estive no Brasil durante as férias, tive de renovar meu visto.
Depois de preencher o formulário onilne, que inclui as clássicas perguntas “Você virá aos EUA para se envolver em prostituição?”, “Você já esteve envolvido em lavagem de dinheiro?”, “Você pretende praticar atividades terroristas, genocídio, ou tortura?”, lá fui eu para minha entrevista.
Observar as pessoas no consulado americano é sempre uma experiência e tanto.
Ainda na calçada do lado de fora, entro em uma pequena fila, iPod no ouvido. Pessoas seguram seus documentos com as mãos trêmulas, pensando em absolutamente tudo que pode dar errado e acabar com aquela viagem pra Disney.
Cerca de quinze minutos depois, o segurança que estava ali parado desde o início, resolve se aproximar.
- Tem algum eletrônico aí?
Não. Meu fone de ouvido está conectado a um pão de queijo.
- Sim.
- Não pode mais entrar com nenhum eletrônico. Tem que deixar no guarda-volumes aí fora.
Do outro lado da rua, todo estabelecimento com uma porta exibe uma placa: GUARDA-VOLUMES – R$5,00. Claro. Atravesso a rua, deixo meus perigosíssimos eletrônicos e volto para o fim da fila.
Uma vez dentro do consulado, aguardo em uma outra fila. Um casal com um filho adolescente parece tenso.
- Não é possível! Isso é um absurdo! – diz o marido, irritadíssimo com alguma coisa.
- Mas que coisa! Precisa ficar reclamando? Não tá vendo que eu já to nervosa? – diz a mulher.
- Isso, continuem brigando, assim a gente consegue o visto – rebate o filho.
Chega a vez deles. Eles entregam os papéis. Faltou preencher um campo. Eles pedem uma caneta. A atendente, que sorriu pela última vez na Copa de 86, os manda para o fim da fila enquanto preenchem o CPF do garoto. O marido parece prestes a explodir.
- Ahhhh, eu vou desistir dessa merda!
Chega a minha vez. Sobrevivo à primeira triagem e sou enviado à próxima janela, a de impressões digitais.
- Preciso tirar as impressões digitais de novo? – pergunto a um ajudante que passa por ali. - É renovação.
- Precisa sim. Toda vez que renova, precisa tirar as impressões.
 Entrego meus documentos ao funcionário na janelinha.
- Cadê o DS-2019?
- Está dentro do passaporte.
Ele o pega com desprezo. Encontra o o documento.
- Ah… Dobrado em mil pedaços.
Respiro fundo.  É mês de Copa do Mundo. Pra que estressar? Ele toma minhas impressões digitais e me manda aguardar mais um pouco. Uma funcionária passa entregando envelopes de SEDEX.
- Não posso vir buscar o passaporte pessoalmente?
- Não, agora só pode mandar pelo correio.
Preencho o envelope. Enfim, sou chamado para a entrevista. Genuinamente simpática, a entrevistadora examina a tela do computador e faz perguntas triviais.
- Você estuda o quê?
- Roteiro.
- Que bacana! E sobre o que é sua tese?
- Ah, não tem bem uma tese. A gente escreve roteiros. Escrevi um ano passado, e vou escrever outro ano que vem.
- Sobre o que é o seu roteiro?
- Como assim? Que gênero?
- Não, sobre o que é, qual é a história?
- Ah, é um romance entre um americano e uma brasileira que têm as malas trocadas num cruzeiro e acabam se apaixonando, sem nunca terem se conhecido pessoalmente.
- É autobiográfico?
Sorrio.
- Não.
Ela também sorri.
- OK, muito obrigado.  Veja com o Fábio quando você pode vir retirar o passaporte.
- Mas não vai ser enviado pelo correio?
- Não, não. O Fábio está esperando você ali fora. Você combina com ele.
Jogo o envelope do SEDEX no lixo, passo pela segurança… e nada do Fábio.
- Senhor, não pode ficar parado aqui, não.
- É que me falaram que o Fábio ia estar me esperando.
Uma funcionária vestida de “Posso Ajudar?” contacta alguém em um walkie-talkie que não funciona muito bem.
- Tem um Fulbright aqui querendo falar com Fábio.
- Falaram pra você voltar lá na janela onde fez a entrevista.
Passo pela segurança novamente. A mulher que me entrevistou pede mil desculpas.
- Esqueci de pegar sua impressão digital.
- Outra vez?
- Sim.
Ela pega minha impressão digital de novo – dessa vez do dedo da outra mão. Volto para o lado de fora. A “Posso Ajudar?” se aproxima novamente.
- O que você tá fazendo aqui ainda? Não falei pra você voltar na janelinha?
- Eu já fui lá, mas era outra coisa. Eu ainda estou esperando o Fábio.
Ele volta para o walkie-talkie. Aquele que não funciona direito.
- Falaram pra você entrar em contato com ele por telefone.
- OK, qual o telefone dele?
- Ah, eu não tenho!
- Eu também não. Como eu vou ligar pra ele?
- Quem agendou sua entrevista?
- A Fulbright.
- Então entra em contato com Fulbright, eles vão entrar em contato com o Fábio e ele vai entrar em contato com você pra dizer quando você pode vir buscar o passaporte.
Que fácil.
No dia seguinte, surpreendentemente, retiro o passaporte com o Fábio. Tudo certo. Um mês depois, estou de volta aos EUA. Na imigração, uma fila enorme. A mesma tensão da fila do consulado se repete. Turistas com suas pastinhas na mão aguardam ansiosamente para enfrentar a última barreira entre eles e a “América”.
Horas depois, sou atendido pela funcionária que aparece no vídeo de cinco minutos que está em looping na TV há duas horas. Demoro alguns minutos para explicar que estou levando farinha de mandioca, e não uma flor (flour X flower).
Ela enfim compreende, sorri, e como se fosse a primeira vez…
- O senhor pode colocar a mão direita ali para eu tirar suas impressões digitais?
 

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A vida secreta de Ryan


Ryan é um dos meus colegas do curso. Tem 29 anos, embora pareça bem mais velho. De cara, achei que nos daríamos bem, não sei bem porquê. Logo conheci sua quase-esposa, Lauren, e juntos, começaram a me arrastar por Los Angeles.
- A gente não bebe, é uma saco ficar indo em bar toda hora. Por isso a gente procura uns restaurantes mais bacanas ou uns eventos diferentes – explicam.
Ir à exibição mensal de “The Room” (2003) é um desses eventos. O filme, considerado por muitos o pior filme de todos os tempos, é exibido em uma rede de cinemas todo o último sábado do mês, há cinco anos. E sempre lota.
O ator/diretor/produtor/roteirista/editor/operador-de-microfone, Tommy Wiseau, sempre comparece para apresentar o filme. Durante a exibição, a plateia – muitas vezes vestida como os personagens do filme - grita, pula, xinga e arremessa colheres de plástico na tela. É melhor que 3D!
Seguindo a mesma linha, Ryan e Lauren me levaram à exibição dupla de “Troll 2” (1990) e do documentário “Best Worst Movie”, feito 19 anos depois pelo ator-(então)-mirim do filme. Ele e o protagonista do filme (que na verdade é dentista!) compareceram à exibição para um Q&A com a plateia. Ryan, Lauren a todos que nos acompanhavam acharam tudo muito engraçado. Confesso que achei o documentário um pouco deprimente…
- Como assim, deprimente? – pergunta meu amigo.
- Ah, sei lá, o cara é dentista há 30 anos, e ficam fazendo ele viver e reviver esse filme mega-fracasso até hoje como se fosse o ponto alto da vida dele – justifico.
- Ele provavelmente está melhor que você!
Ainda na linha “tiração de sarro”, Ryan e Lauren me arrastam para a peça “Point Break Live!”, uma versão satirizada – e muito interativa! – do filme “Caçadores de Emoção”(1991), onde o personagem de Keanu Reeves – Johnny Utah – é selecionado na plateia. Não sei o que foi melhor: as piadas afiadas, os banhos de água, os banhos de sangue, ou o fato de John Terry (o pai de Jack em “Lost”) estar sentado ao nosso lado na plateia.
Ryan e Lauren também são fanáticos por música, e sempre me arrastam para shows. Literalemente.
- Comprei um ingresso pra você para o show do RJD2. Você me deve 25 dólares.
- Quem é esse???
Foi assim que fui ao El Rey, a casa de shows mais antiga de Los Angeles. E foi assim que descobri que eu curto RJD2. Da mesma forma, conheci o Music Box, onde ouvi pela primeira vez a banda Broken Bells.
Recentemente após uma discussão entre Ryan e Lauren pra decidir quem é mais fã de Plants & Animals, fui convencido a ir a um show deles, no El Trobadour, onde ficamos literalmente a um metro do palco.
A banda de abertura – Lost in The Trees – foi um surpresa à parte.  Juro que a banda de seis integrantes toca mais de 20 instrumentos, e metade deles eu nunca ouvi falar.
Hoje, depois de copiar o HD do Ryan, tenho 20 novos gigas de música (além de uma cópia do filme “Eliott”, um spin-off do filme ET, considerado o pior curta produzido no AFI esse ano.)
Agora Ryan e Lauren (entre outros!) têm o plano de me americanizar fazendo com que eu assista ao que eles consideram melhores comédias lançadas nos útimos anos – um conceito no mínimo subjetivo…
Lauren parece estar melhor de saúde. Depois de ter passado por uma cirurgia no cérebro e uma para a retirada do baço no passado, esteve o mês de maio inteiro internada com um problema no pâncreas, que ninguém consegue identificar. Passou mais de um mês sem alimentos de verdade e foi à metade dos eventos mencionados usando um tubo de alimentação.
Ryan, que foi preso duas vezes, esteve à beira da morte e foi internado em uma clínica de reabilitação, não usa drogas há mais de 3 anos.
 

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Mr. Smith (finally) goes to Washington


Em fevereiro deste ano, deveria ter acontecido em Washington D.C. um seminário da Fulbright sobre Empreendedorismo Social. Como toda neve DO MUNDO resolveu cair naquela cidade precisamente naquela semana, o evento foi adiado para esta semana que passou.
Ainda no areoporto de Los Angeles, começam as aventuras.
Dentro do avião, com o voo atrasado, o jovem piloto dá o primeiro aviso:
- Boa noite, senhores passageiros. Eu tenho uma notícia boa e uma-- na verdade, eu tenho uma notícia mais ou menos boa. Nós vamos decolar em cerca de quinze minutos, porque ainda tem uns dez voos na nossa frente - o que é muito estranho, já que eu sempre faço esse voo e isso nunca aconteceu. Assim que nós decolarmos, o ar vai estar um pouco agitado, então eu peço pra que vocês não levantem dos seus assentos. Cerca de uma hora depois, nos vamos novamente enfrentar uma turbulência severa-- quer dizer, não severa, mas assim, seria bom se os comissários também permanecessem sentados e com o cinto de segurança afivelado. Obrigado.
Cadê a notícia boa!?
Horas de chocoalhos depois - lá pelas 2h da manhã – um bebê na fileira do lado começa a chorar… e assim permanece pelos próximos 90 minutos, até desembarcarmos em Washington, onde já são 6h30. Dormir, pra quê?
Depois de uma insignifcante cochilada, seguimos para um tour relâmpago pela cidade, no esquema 297 pontos turísticos em 3 horas – Casa Branca, Capitólio etc.
No primeiro jantar (peixe + cheesecake), conhecemos os 60 integrantes do evento – vindos de 47 países diferentes e com as mais diversas especialidades.
- Sou da Holanda, PhD em medicina. Estou procurando a cura para a enxaqueca.
- Eu estudo na Georgia Tech. Estamos desenvolvendo melhores uniformes para astronautas terem maior mobilidade no espaço.
Todos parecem bastante impressionados, mas nada se compara às reações eufóricas após:
- Meu nome é Filipe. Sou do Brasil e estudo roteiro em Hollywood.
Das duas uma: ou eu não entendo Hollywood, ou eles não entendem o mundo.
Conheço também meu roommate pelos próximos dias: um australiano cujas características marcantes são ter 1,91m de altura, ter costeletas de cowboy, estudar oceonografia e roncar absurdamente. Tudo que eu precisava.
No dia seguinte, com o sono totalmente desregulado, começam as palestras. Entre os palestrantes, estão:
- Maya Ajmera, fundadora e presidente do The Global Funding For Children;
- Chandler Arnold, diretor executivo da First Book Market Place;
- Shari Berenbach, presidente da Calvert Fundation.
“Meu Deus, eles aqui explicando como salvar o mundo e eu me matando pra ficar acordado.”
Depois do almoço (peixe + cheesecake), alguns de nós seguimos para a Howard University – a primeira universidade para negros dos EUA – para algumas horas de trabalho voluntário, catalogando um pesquisa popular sobre a revitalização de uma rua do bairro. 
À noite, churrasco – isto é, hamburguer + cachorro quente – na casa de um Fulbrighter da Inglaterra. Entre estudantes da Rússia, Austrália, Ucrânia, Equador, Espanha e Alemanha, surge uma inusitada conversa:
- Então, quando eu fui pra Ucrânia, eu juro que toda balada que eu entrava, por mais normal que parecesse, tinha alguém tirando a roupa – diz o inglês.
- Tem certeza de que não tinham uns letreiros luminosos na entrada? – brinca o espanhol.
- Ah, mas é assim mesmo. Toda balada tem uma área de dança, uma área com sinuca, uma área de restaurante, e uma área de striptease. Sempre tem alguém tirando a roupa – esclarece a ucraniana.
- Gostei! – diz o alemão – Precisamos importar o modelo. 
No segundo dia, somos divididos em grupos para uma competição de empreendedorismo social. O objetivo é identificar um problema em uma área – educação, economia, saúde, ambiente – e propor uma solução concreta e sustentável. 
Conforme cada um do meu grupo se apresenta, mordo a língua por toda vez que tirei sarro dos americanos por não saberem geografia.
- Olá, meu nome Igor, sou de Benin.
- Eu sou a Shwe, de Burma.
- Meu nome é Patrick. Eu sou da Suazilândia.
Jura que isso são países!?
Num dos raros intervalos do dia, corro até o Starbucks para acessar o google maps e descobrir onde exatamente fica Burkina Faso. Conseguir acessar a internet no Starbucks é tão ou mais difícil do que entender a lógica por trás dos três tamanhos de café oferecidos (“tall”, “grande” e “venti”). Mas sou brasileiro e não desisto nunca!
No último dia, depois do almoço (peixe + cheesecake), seguimos para uma espécie de caça ao tesouro pelo National Mall. Do grupo de seis pessoas, duas não poderiam estar menos interessadas. 
- Tem certeza de que não querem ir para um bar?
Derrotadas, eles apenas nos seguem sob o calor de 30 graus, entrando e saindo de museus e bibliotecas atrás de pistas – o que exige, é claro, passagens por equipes de segurança que escaneiam celulares, carteiras, relógios, cintos e afins. 
À certa altura, estamos perdidos pelo Museu de História Natural, em meio a fósseis de pássaros, procurando pelos sapatinhos da Dorothy em O Mágico de Oz.
- Vocês estão no museu errado – informa a funcionária. – O Museu de História Americana fica do outro lado da rua. 
Termina a gincana. Voltamos para o hotel com alguns minutos para o banho e já temos que seguir para o jantar de despedida. 
O menu? Peixe + tortinha de chocolate. Agora sim!
Saem os resultados das gincanas e da competição de empreendedorismo social. Perdemos em tudo. A moderadora tenta animar os derrotados – que, convenhamos, não estão lá muito preocupados.
- Lembrem-se de que todos aqui são vencedores!
Mas ela também diz algo que, de fato, tem efeito:
"Tenham em mente que o papel de vocês como bolsistas Fulbright não é dar o peixe… e nem ensinar a pescar. É mudar a indústria da pesca."
Dia seguinte, tenho planejado um bate-volta de trem até Baltimore para almoçar com um amigo. Tudo milimetricamente programado para a volta: pega o trem em Baltimore às 2:43, chega em Washington às 3:25, corre até o hotel, pega o Super Shuttle às 3:50 pro aeroporto, voo pra Los Angeles às 6:30. 
No discreto trânsito da incrivelmente quente cidade de Baltimore, meu amigo tenta me acalmar.
- Relaxa, os trens sempre atrasam.
- Não, cara! O trem não pode atrasar! Tem que estar tudo no horário!
A alguns metros da estação, pulo do carro e corro até a área de embarque. “Cadê a plataforma E?” Enfim, encontro a plataforma E, escondidinha lá no canto. Alguns passageiros ainda estão sentados. Ufa!
Uma senhora, porém, me alerta: “Senhor, nós estamos esperando o trem das 3:20. O das 2:43 está saindo agora.”
Voo escada abaixo e me deparo com o trem já em movimento, saindo da estação. Junto com o trem, visualizo também a van e o avião partindo sem mim. No desespero, corro em paralelo ao trem e vejo que a porta ainda está aberta. É agora ou nunca!
Segundos depois, estou me equilibrando dentro do trem, procurando um assento, ainda impressionado com a minha manobra. Aí bate a dúvida: será que estou no trem certo?
Sim, estava. Tudo corre bem, e consigo embarcar no avião a tempo – mesmo com a tensão de alerta laranja devido às ameaças de bomba em Nova York, o que torna a vida de qualquer passageiro ligeiramente árabe um inferno. 
Sento na minha poltrona, exausto, e aguardo enquanto os outros passageiros lutam para conseguir um espaço no compartimento de bagagens -  é isso que dá quando começam a cobrar para despachar bagagens. Quando estamos prestes a decolar, vem o aviso:
- Senhores passageiros, devido ao mau tempo no Tennessee, vamos ter que aguardar uma hora no solo. Por favor, permaneçam em seus assentos. Obrigado pela compreensão.
Crianças choram, mulheres reclamam, homens bufam. Não tenho dúvida: viro pro lado, encosto a cabeça na janela e, enfim, consigo dormir. Pelo menos ninguém ronca.

domingo, 18 de abril de 2010

Road trip


Minhas últimas semanas foram as mais corridas desde que cheguei a Los Angeles. Alguns eventos merecem destaque:
- Última semana de março = spring break = road trip!

- Passamos por 3 estados (Nevada, Arizona, Utah), sem contar a Califórnia.
- Visitamos 3 parques nacionais – Grand Canyon, Zion e Bryce Canyon. É impossível dizer qual é mais impressionante.

- Rodamos 3.365km – o que exige que eu leve meu carro para a revisão em menos de dois meses de uso.
- Cruzamos 2 fusos horários - que bizarramente mudam de Norte a Sul, e não de Leste a Oeste, devido ao fato de o Arizona não acatar o horário de verão.
- Fui parado pela polícia pela primeira vez por excesso de velocidade – adoro quando a velocidade máxima na estrada é 40km/h.
- Passamos pelo Hoover Dam, uma barragem que contém a maior estrutura de concreto do mundo.
- Passamos uma noite em Laughlin, Nevada, na divisa com o Arizona, onde a idade média dos hóspedes do hotel era 58 anos - e a julgar pelo cheiro do cassino, a média de cigarros fumados por dia por cada hóspede também era 58.
- Passamos duas noites em Flagstaff, Arizona, em um hotel contruído em 1897 e que sem dúvida era mal-assmobrado.
- Visitamos um igreja encrustrada em uma pedra em Sedona, Arizona.
- Dirigi na neve pela primeira vez.
- Comi nas redes IHOP, Denny’s, Sonic e Joe’s Crab Shack pela primeira vez.
- Por alguns minutos, ficamos perdidos em uma trilha em Zion, sob um sol escaldante – e sem garrafas d’água.
- Por alguns minutos, ficamos perdidos em uma trilha em Bryce, isolados na neve – e sem garrafas d’água.
- Ficamos hospedados na cidade de Kanab, Utah, onde diversos faroestes foram filmados – e onde tive as três melhores refeições desde que cheguei nos EUA.
- Assisti ao filme The Room na TV – versão censurada – pela primeira vez. (Se você ainda não assistiu a The Room, você ainda não é um ser-humano completo.)
- Dirigi por 50km em uma estrada sem passar por nenhum carro.
- Dirigi pela Rota 66 – mesmo sem ter certeza se estava ou não na Rota 66.
- Ultrapassei um veículo que carregava a frente de um avião.
- Cruzamos com um ônibus de turistas orientais. Três vezes. Em três cidades diferentes.
- Dirigimos uma hora em uma estrada de terra até o West Grand Canyon só para andar no Skywalk – e não andamos no Skywalk. E foi incrível mesmo assim.
 - Voltei para LA e sofri de “depressão-pós-spring-break” por alguns dias. Por vários dias. 
- Vivenciei meu primeiro terremoto – que me acordou da minha primeira soneca vespertina em muito tempo.
- Achei demais ter almoçado a algumas mesas de Ethan Embry – até descobrir que Juliette Lewis também estava lá e eu não notei.
- Tive uma palestra com o roteirsta Rodrigo García, que se tornou ainda mais fascinante quando descobri tratar-se do filho de Gabriel García Marquez.
- Assisti a um curta-tese entitulado “Resposta Sexual Equestre”. Protagonizado por uma criança. E um cavalo.
- Terminei o primeiro tratamento do meu longa-metragem. E também do meu curta-tese. Agora só tenho que re-escrever tudo...
- Participei da minha última filmagem como microfonista, onde na reunião de segurança recebemos o seguinte aviso: “Não pise no gramado dos vizinhos. Você pode levar um tiro.”
- Não levei um tiro.
E acho que é só…

sábado, 27 de março de 2010

What happens in Vegas...


…goes to Facebook, Youtube and everywhere else.
Neste último fim de semana, fui a um casamento em Las Vegas. Uma colega do curso de produção (natural da Carolina do Norte) ia se casar com um espanhol e decidiu – sabe-se lá porque – casar-se em Las Vegas, em um fim de semana em que 70% dos alunos estavam filmando. Felizmente, não era um desses alunos e pude comparecer ao evento.
A noiva aluga uma van para que possamos sair do AFI logo após a aula da manhã e chegarmos a tempo para a despedida de solteiro. É claro que decidem marcar uma palestra com Aaron Eckhart até às 6h da tarde, o que acaba com nossos planos. Já são quase 9h da noite quando deixamos Los Angeles rumo à excêntrica cidade de Las Vegas.
Chegamos por volta das 2h da manhã. Alguns bares e cassinos depois, estávamos caídos em nossas camas. O casamento é no dia seguinte às 2h30 da tarde. Logan (que dividia o quarto comigo) e eu perdemos a van e temos que chegar ao local da cerimônia de táxi. O taxista, é claro, não tem o inglês mais compreensível do mundo.
- Vão pra onde?
Damos o endereço.
- Não conheço.
Olho pro Logan. E agora? Um funcionário do hotel se aproxima. Explicamos a situação, ele tenta ajudar o taxista.
- Ih, esse lugar é longe… Acabei de explicar pra outro motorista como chegar lá. Você segue atééééé o Sahara, vira à direita na Bufalo, vai em frente, passa o lago e vira a segunda à esquerda.
- Direto até o Sahara, depois…?
Olho para o relógio. Temos 20 minutos. Logan acessa o mapa no celular e seja o que Deus quiser! Exatos 20 minutos e 35 dólares depois, chegamos ao local. E cadê a van? Nada do pessoal. Sem dúvida se perderam. Não seria o fim do mundo, não fosse o fato de que o cerimonialista – que também é aluno do AFI! – estar na van.
Minutos depois, chegam todos, esbaforidos. Sentamos nas cadeiras em frente ao lago. Cadê os outros convidados? Não tem. Somos só nós. Legal! 
A cerimônia começa. Começam também os latidos dos cachorros, os aviões e, é claro, todos os tipos de embarcações que passeiam pelo lago. 
Algumas horas mais tarde, estamos no sexagésimo quarto andar do hotel Trump para o jantar. A vista da cidade é impressionante. De um lado, uma imensa chapada, onde é difícil saber o que é deserto e o que são casas. Do outro, imensos hotéis, perdidos no meio do nada. Dentro do hotel, muita comida, muita bebida e muitos banheiros em uma suíte de US$3.800 por noite.
Todos relativamente comportados, partimos para a terceira parte do evento: um “after-party” na boate do hotel Wynn. Vamos à pé. Noivas atravessando a rua, dia ou noite, é uma imagem completamente normal em Las Vegas.
Lá pelas 11h da noite, o espírito da cidade já tomou conta dos convidados, e nem todos conseguem lidar muito bem com o generoso amigo chamado open bar. Entre eles, Logan.
À uma da manhã, um segurança calmamente se aproxima de mim:
- Acho que seria bom você levar seu amigo embora, senão vamos ter que tomar providências.
Parecia uma tarefa fácil. Ha-ha.
Entre gritos de “Eu odeio o mundo!” e “Eu te amo, cara!”, arrasto Logan pra fora da balada, atravesso o cassino e chego até a porta do hotel. Os táxis – enfim! – estão logo ali. Mas Logan foge de mim.
- As pessoas estão aqui dentro…
- Eu sei, cara, mas a gente precisa ir embora!
Minutos de diálogo… e nada. Tento arrastá-lo para o táxi, ele fica violento. As pessoas na fila do táxi adoram o show. Logan se diverte me dando joelhadas e cotoveladas, enquanto a plateia tira fotos e torce para um de nós. Os funcionários, já vacinados, assitem a tudo sem exaltação. “Mais um…”
Com a promessa de que o levaria para um lugar “com pessoas”, e não para o hotel, consigo arrastá-lo para dentro do táxi – e também convencer a fila de que preciso passar na frente de todos antes que ele me nocauteie.
Às 10h da manhã – após uma madrugada inteira explicando ao Logan de que o banheiro não era o lugar mais apropriado para dormir – é hora de partir. No elevador, é difícil identificar quem está bêbado e quem está de ressaca. O mesmo ocorre no cassino, na rua, no Starbucks e em qualquer lugar onde haja seres humanos.
Na van de volta, comentários, troca de fotos da noite anterior e, é claro, trânsito.
Depois de dois dias intensos em Las Vegas – que, honestamente, acho que são suficientes – e mais sete horas de estrada, chegamos em casa… 
Pela primeira vez desde que cheguei a Los Angeles, tenho a sensação de que estou, de fato, EM CASA. E também, pela primeira vez, me dou conta de que, em breve, vou sentir falta dessas pessoas, que de “colegas do AFI”, sem que eu perceba, vão se tornando grandes amigos.
What happens in Vegas… lasts for a lifetime.